Em seu primeiro discurso em Guiné Equatorial, Papa afirmou que as autoridades civis e políticas têm o dever de remover os obstáculos ao desenvolvimento humano integral
Da redação, com Santa Sé

Encontro do Papa com as autoridades e membros do corpo diplomático / Foto: Reprodução Vatican Media
O primeiro compromisso do Papa Leão XIV em Guiné Equatorial foi com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, e contou com a presença de líderes políticos e religiosos. O Santo Padre chegou ao país na manhã desta terça-feira, 21, para a última etapa de sua viagem apostólica ao continente africano.
Em seu pronunciamento, no encontro com as autoridades, o Papa expressou sua alegria de estar o país e afirmou que as razões de sua viagem são para “confirmar na fé e consolar o povo” de Guiné Equatorial. “Tal como no coração de Deus, assim também no coração da Igreja ressoa o eco do que acontece na terra, entre milhões de homens e mulheres pelos quais o nosso Senhor Jesus Cristo deu a vida”, destacou.
Cidade de Deus e cidade terrena
O Pontífice recordou que Santo Agostinho interpretava os acontecimentos e a história segundo o modelo de duas cidades: a de Deus, eterna e caracterizada pelo seu amor incondicional (amor Dei); e a terrena, lugar de morada provisória, na qual o homem e a mulher vivem até à morte.
Ele explicou que, nesta perspectiva, as duas cidades existem conjuntamente até ao fim dos tempos e “cada ser humano manifesta nas suas decisões, dia após dia, a qual delas deseja pertencer”.
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O Papa lembrou que Guiné Equatorial empreendeu um imponente projeto de construir uma cidade, que há poucos meses é a nova capital do país, a quem deram o nome de Ciudad de la Paz e afirmou: “Que tal decisão possa interrogar as consciências sobre qual cidade desejam servir!”
Chamado de Deus para os cristãos
Leão XIV destacou Santo Agostinho considera que os cristãos são chamados por Deus a habitar na cidade terrena com o coração e a mente voltados para a cidade celeste, a sua verdadeira pátria. “Todo o ser humano pode apreciar a antiquíssima consciência de viver na terra como de passagem. É fundamental que sinta a diferença entre o que perdura e o que passa, mantendo-se livre da riqueza injusta e da ilusão do domínio”.
O Santo Padre afirmou que, o cristão, vivendo na cidade terrena, não está alheio ao mundo político e procura aplicar ao governo civil a ética cristã, inspirada nas Escrituras. Ele destacou que a Doutrina Social da Igreja representa uma ajuda para quem deseja enfrentar as “coisas novas” que desestabilizam o planeta e a convivência humana, buscando, antes de tudo, o Reino de Deus e a sua justiça.
“Esta é uma parte fundamental da missão da Igreja: contribuir para a formação das consciências, através do anúncio do Evangelho, da oferta de critérios morais e de princípios éticos autênticos, no respeito pela liberdade de cada indivíduo e pela autonomia dos povos e seus governos”, afirmou.
A nova face da injustiça social
O Papa ressaltou que hoje a “exclusão” é a nova face da injustiça social, e ao falar desse tema nos deparamos com “um paradoxo”. “A falta de terra, comida, casa e trabalho digno coexiste com o acesso às novas tecnologias que se difundem por toda a parte através dos mercados globalizados. Os telemóveis, as redes sociais e até mesmo a inteligência artificial estão ao alcance de milhões de pessoas, incluindo os pobres. Consequentemente, é dever inalienável das autoridades civis e da boa política remover os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, do qual a destinação universal dos bens e a solidariedade são princípios fundamentais”.
Nesse sentido, o Papa afirmou que a vertiginosa evolução tecnológica acelerou uma “especulação” ligada à necessidade de matérias-primas, que parece “fazer esquecer exigências fundamentais como a salvaguarda da criação, os direitos das comunidades locais, a dignidade do trabalho e a proteção da saúde pública”.
E retomando o apelo do Papa Francisco, que faleceu há exatamente um ano, Leão XIV reafirmou: “Hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata”.
“Com efeito, hoje, mais do que há alguns anos, é ainda mais evidente que a proliferação dos conflitos armados tem entre os seus principais motivos a colonização de jazidas petrolíferas e minerais, sem qualquer respeito pelo direito internacional e pela autodeterminação dos povos”, apontou o Papa. E completou: “As próprias novas tecnologias surgem concebidas e utilizadas principalmente para fins bélicos e em contextos que não deixam vislumbrar um aumento de oportunidades para todos”.
Um risco para o destino da humanidade
Leão XIV afirmou que, sem uma mudança de rumo na assunção de responsabilidade política e sem respeito pelas instituições e pelos acordos internacionais, o destino da humanidade corre o risco de ser tragicamente comprometido.
“Deus não deseja isto. O seu santo Nome não pode ser profanado pela vontade de domínio, pela prepotência e pela discriminação: acima de tudo, não deve nunca ser invocado para justificar escolhas e ações de morte. Que o vosso país não hesite em rever as suas trajetórias de desenvolvimento e as positivas oportunidades de se posicionar no cenário internacional ao serviço do direito e da justiça”, defendeu.
O Papa finalizou seu discurso ressaltando que Guiné Equatorial é um país jovem e pode encontrar na Igreja “ajuda para a formação de consciências livres e responsáveis”.
“É preciso valorizar quem acredita na paz e ousar políticas contracorrente, cujo centro é o bem comum. É urgente ter a coragem de visões novas e de um pacto educativo que dê aos jovens espaço e confiança. A cidade de Deus, cidade da paz, deve, realmente, ser acolhida como um dom que vem do alto e para o qual devemos voltar o nosso desejo e todos os nossos recursos.”
O Papa permanecerá em Guiné Equatorial até quinta-feira, 23, concluindo sua viagem apostólica à África.


