Pregador da Casa Pontifícia destaca chamado a aproximar-se da Cruz do Senhor, com confiança, reconhecendo nela o trono sobre o qual se aprende a reinar
Da redação, com Vatican News

O Papa Leão XIV presidiu a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro, no Vaticano, nesta Sexta-feira Santa, 3.
A homilia foi proferida pelo pregador da Casa Pontifícia, Frei Roberto Pasolini, OFM Cap. Ele destacou que, diante deste mistério de morte e de glória, na Paixão do Senhor, é natural recolher-se em silêncio na oração. Porém, alertou para o risco de que a Cruz de Cristo permaneça “incompreensível” se for olhada como um fato isolado, “como um evento repetindo e inexplicável.
“Na realidade é o ponto mais alto de um caminho, o cumprimento de uma vida em que Jesus aprendeu a ouvir e acolher a voz do Pai, deixando-se guiar até o Amor maior”, enfatizou Frei Pasolini.
Ele explicou que nestes dias da Semana Santa a liturgia trouxe os cantos do servo do Senhor, nos quais o profeta Isaías traçou a figura de “um servo misterioso, pelo qual Deus consegue salvar o mundo do mal e do pecado”. E a tradição cristã reconheceu nestes cãnticos uma prefiguração de Jesus. “Cristo interpretou e viveu intensamente, com plena confiança na vontade do Pai, a ponto de transformar sua crucificação num evento de salvação”.
O mal e a violência se multiplicam
O frade capuchinho enfatizou a atualidade dos sofrimentos “daquele homem das dores que bem conhece o sofrimento” e também a originalidade “surpreendente” de sua resposta às ofensas injustamente infligidas a ele.
“Vivemos num mundo no qual a voz de Deus já não orienta mais, como antes, o caminho partilhado pela humanidade”, comentou frei Pasolini. “Não porque tenha desaparecido, mas porque muitas vezes se tornou apenas mais uma voz entre muitas, abafada por outras palavras que prometem segurança, progresso e bem-estar. Essas são as indicações que guiam muitas escolhas hoje e traçam o rumo de nossa vida em comum”.
Ele destacou que, no entanto, o mundo continua sendo um lugar onde se sofre e se morre, muitas vezes sem culpa e sem razão. “As guerras não cessam, as injustiças se multiplicam e os mais vulneráveis pagam o preço.”
“Partitura da Cruz”: não responder ao mal com o mal
O frade disse que é uma dinâmica que se repete, pois se baseia num instinto inscrito na carne de cada ser humano: um impulso a “reagir”, a “devolver” o “mal recebido”, a “acertar as contas”. “No entanto, nesta música que flui de um pentagrama conhecido e aparentemente imutável, irrompe uma nova melodia, graças a Cristo. É a ‘partitura da Cruz’ executada por ‘uma banda silenciosa de pessoas que escolhem ouvir uma voz diferente’, a de Jesus, que primeiro deu o exemplo no Gólgota. ‘É um canto discreto e obstinado’, que convida a amar, a permanecer, a não retribuir o mal recebido”, acrescentou o pregador da Casa Pontifícia.
O trabalho dessas pessoas é tão silencioso e invisível quanto precioso. “São homens e mulheres”, continuou o capuchinho, “que trilham, às vezes sem nem mesmo saber, o mesmo caminho do Servo do Senhor. Não realizam gestos extraordinários. Simplesmente se levantam todos os dias e procuram fazer de suas vidas algo que sirva não só a eles mesmos, mas também aos outros. Carregam fardos que não escolheram, acolhem feridas sem se endurecerem, não deixam de buscar o bem mesmo quando parece inútil. Não fazem barulho, não ocupam o centro das atenções, mas mantêm aberta a possibilidade de um mundo diferente.”
Depor as armas que devastam o mundo
Frei Pasolini destaca que a Cruz de Cristo encoraja a “decidir, ao menos no fundo do coração, depor as armas que ainda temos nas mãos”. “Estas são armas de agressão cujo perigo podemos ser tentados a subestimar, especialmente quando comparadas ao potencial ofensivo mortal das armas “à disposição dos poderosos do mundo”.
“No entanto”, disse o padre Pasolini, “elas também são instrumentos de morte, porque são suficientes para enfraquecer, ferir e esvaziar as nossas relações diárias de significado e amor”.
Ao mundo que busca salvação da “violência do mal”, da “injustiça que mata”, das “divisões que humilham”, Cristo na Cruz oferece uma solução inovadora, não baseada em “decisões políticas, econômicas ou militares”. Imitando seu exemplo, “o mundo é continuamente salvo por aqueles dispostos a abraçar os cânticos do Servo do Senhor como um modo de vida”, enfatizou o capuchinho.
Uma nova lógica de serviço aos outros
“Numa época como a nossa”, concluiu o padre Pasolini, “tão dilacerada pelo ódio e pela violência, onde até o nome de Deus é invocado para justificar guerras e decisões de morte, nós, cristãos, somos chamados a aproximar-nos da Cruz do Senhor sem medo, aliás, ‘com plena confiança’, reconhecendo nela o trono sobre o qual se aprende a reinar, colocando a própria vida a serviço dos outros.”
Após a homilia, a celebração da Paixão continuou com a Oração Universal e a adoração da Santa Cruz e terminou com a Sagrada Comunhão.




