COLETIVA DE IMPRENSA

'Amoris laetitia': Igreja renova compromisso com as famílias

O Vaticano realizou uma coletiva de imprensa por ocasião do encerramento do encontro eclesial para marcar o 10º aniversário da Exortação Apostólica do Papa Leão XIV

Da redação, com Vatican News

A coletiva de imprensa por ocasião do encerramento do encontro eclesial para marcar o 10º aniversário da Exortação Apostólica Amoris Laetitia / Foto: Alessia Giuliani – Vatican Media – Sipa USA via Reuters Connect

“Novas respostas para novas perguntas”. O olhar da Igreja é “lúcido” e atento às mudanças que giram em torno das relações e da vocação matrimonial. “Juntos em um mundo em transformação” é, de fato, um dos títulos que irão compor o documento de síntese do encontro promovido no Vaticano de 7 a 14 de outubro, intitulado “Há 10 anos de Amoris laetitia: anunciar o Evangelho com as famílias hoje”. As conclusões foram apresentadas durante a coletiva de imprensa realizada na noite desta quarta-feira, 14 de outubro, na Sala de Imprensa da Santa Sé.

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Participaram do evento o arcebispo de Guayaquil, no Equador, cardeal Luis Gerardo Cabrera Herrera; o arcebispo metropolita de Malta e secretário adjunto do Dicastério para a Doutrina da Fé, dom Charles Jude Scicluna; o padre nigeriano e professor da DePaul University de Chicago, nos Estados Unidos, Stanislaus Chu Ilo; o Pe. Giacomo Costa, consultor da Secretaria Geral do Sínodo e responsável pela metodologia do encontro; o reitor do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família e coordenador dos especialistas, mons. Philippe Bordeyne; e os brasileiros Solange Gregory Schila e Alisson Roberto Schila, casal que participou do encontro.

Relato dos trabalhos

O primeiro a tomar a palavra foi o Pe. Costa, que descreveu a atmosfera dos dias de debate, vividos em proximidade espiritual com o Papa após a cirurgia realizada no dia 13 de outubro para a remoção de um adenocarcinoma pulmonar. Os participantes dos trabalhos enviaram uma mensagem ao Pontífice, à qual ele respondeu com um texto próprio: “vou ler os frutos do trabalho e das discussões de vocês”, escreveu ele, “e, no momento oportuno, vou oferecer as minhas reflexões”.

O religioso definiu o trabalho realizado como “intenso”, mas construtivo, especialmente por meio do diálogo entre diferentes sensibilidades. Entre os temas abordados, destacou-se a importância de oferecer ajuda espiritual e concreta em situações de violência e abuso doméstico: um apoio que deve ser “oportuno” e prestar atenção especial à proteção das crianças e das pessoas vulneráveis. Também foi enfatizada a necessidade de reduzir o estigma que pode acompanhar a decisão de pedir ajuda em momentos de dificuldade.

Ao longo dos trabalhos, foram apresentados exemplos de lares que “construem a paz”, por exemplo, por meio do acolhimento de migrantes. Como observou Costa, o empenho das famílias não deve se limitar às “relações mais próximas”, mas se estender também aos âmbitos político, econômico e social. Falou-se, além disso, do seu envolvimento na formação dos presbíteros.

A última parte do encontro foi dedicada à apresentação do relatório de síntese, seguida de um debate, primeiro em grupos e depois em sessão plenária. O texto foi reconhecido como fiel às discussões, embora com algumas observações construtivas destinadas a enfatizar ainda mais sua “dimensão missionária”. Os trabalhos foram concluídos pelo cardeal Kevin Joseph Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, com a leitura da mensagem do Papa Leão XIV.

Fiéis se reúnem para participar da missa presidida pelo cardeal Luis Antonio Tagle, que marca o 10º aniversário da exortação apostólica Amoris Laetitia / Foto: Stoyan Nenov – Reuters

O documento de síntese

“Juntos em um mundo em transformação” e “Os jovens e a descoberta da vocação matrimonial”. Ao apresentar os temas centrais do relatório de síntese do encontro, mons. Bordeyne explicou como o percurso dos trabalhos partiu da escuta para chegar a uma elaboração compartilhada das questões que surgiram. Entre os elementos de convergência mais evidentes, destaca-se a aceleração das mudanças que, nos últimos 10 anos, afetaram, em todos os países, as famílias, o matrimônio e os costumes a ele associados.

Um dos primeiros temas abordados foi o da fragilidade, conceito fundamental de Amoris laetitia, a ponto de ser o tema central do capítulo 8 da exortação apostólica. Um segundo campo de reflexão diz respeito às mudanças sociais e econômicas e seu impacto sobre as famílias. Para lidar com essas transformações, destacou o bispo, o ponto de referência é a doutrina social da Igreja, que Leão XIV definiu não como uma “varinha mágica”, mas como uma “tradição viva que nos prepara para encontrar novas respostas a novas perguntas”. O trabalho se desenvolveu na consciência de uma Igreja chamada a confrontar-se com as mudanças e os avanços humanos, inclusive no que diz respeito à vida matrimonial e sexual. Um “olhar lúcido” sobre a realidade que, embora posta à prova pelas transformações em curso, permanece animada pela esperança.

Além disso, os trabalhos revelaram a necessidade de promover a proximidade e o “aprendizado mútuo” entre as famílias e a Igreja, realidades que, como foi observado, “se assemelham”. A tarefa dos pastores não é, antes de tudo, julgar as famílias, mas ouvi-las. A esse respeito, Bordeyne contou o exemplo de um padre que não havia conseguido resolver o problema de uma família que enfrentava o uso excessivo do celular durante as refeições. A escuta, no entanto, permitiu mudar a maneira de lidar com a dificuldade. Quando a família voltou ao padre alguns dias depois, disse: “ainda temos o mesmo problema, mas estamos tentando encarar isso com mais leveza”.

Durante as discussões, também foram abordados temas que apresentam diferenças dependendo das diversas partes do mundo, como o da convivência entre casais. “Quando dois jovens decidem se casar, tornam-se portadores, em suas gerações, das transformações do seu tempo”, resumiu o prelado.

Os depoimentos

O arcebispo Scicluna expressou gratidão por ter colocado “a família no centro da Igreja”, lembrando que, já há 10 anos, a Exortação Apostólica do Papa Francisco havia lançado um convite à “conversão pastoral”, exortando a ouvir as famílias antes mesmo de julgá-las. A partir dos trabalhos realizados no Vaticano nestes últimos dias, o cardeal Cabrera Herrera identificou quatro características dos focos: oração, comunhão, formação e missão. O fio condutor é o do acompanhamento, a ser promovido não apenas nos contextos em que se atua pessoalmente, mas em benefício de toda a Igreja. Chu Ilo compartilhou a experiência do trabalho de acompanhamento às famílias na África, ressaltando que “nem todos os problemas podem ser resolvidos, mas a Igreja deve ser capaz de falar por meio da escuta”. Um conceito retomado também pelos depoimentos de Solange Gregory Schila e Alisson Roberto Schila, que relataram ter desenvolvido um “sentido de pertença eclesial” mais forte graças a uma abordagem atenta não apenas às fragilidades das famílias, mas também aos seus recursos e riquezas.

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