Oncologista do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo explica o que é o nódulo que foi retirado do pulmão do Papa Leão XIV, um tipo muito comum de câncer

Marcelo Corassa, oncologista do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo / Foto: Reprodução
Aline Imercio
De São Paulo (SP)
No domingo, 11, o Papa Leão XIV informou aos fiéis faria uma cirurgia para retirada de um nódulo em estágio inicial no pulmão. A cirurgia do Pontífice foi realizada nesta terça-feira, 12, e uma rápida biópsia identificou adenocarcinoma pulmonar, um tipo comum de câncer de pulmão. Conversamos com o médico oncologista e pesquisador do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, doutor Marcelo Corassa sobre esse assunto.
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Canção Nova Notícias — Doutor, o Papa Leão XIV recebeu o diagnóstico de adenocarcinoma de pulmão, gostaria que o senhor explicasse esse tipo de câncer?
Corassa — O adenocarcinoma de pulmão é o tipo de câncer de pulmão mais comum que a gente tem hoje em dia, seja em pacientes que fumaram, seja pacientes que não fumaram é o tipo mais comum. Muito associado ao tabaco, o tabaco continua sendo o principal fator de risco para câncer de pulmão. Mas o adenocarcinoma de forma específica, ele tem um potencial de causar, de aparecer, também em pacientes que nunca fumaram. Hoje eu sempre digo que se você pega um paciente que nunca fumou com um diagnóstico de câncer de pulmão, a maior probabilidade é que seja um adenocarcinoma. E, de modo geral, até é interessante a gente pensar que a gente sempre fala em oncologia da biópsia primeiro para depois fazer a cirurgia. O que aconteceu muito provavelmente foi: fizeram tomografias, pet scan, todos os exames que apontavam que tinha alguma coisa ali naquele pulmão que era maligno. Então eles tinham dois caminhos para seguir: fazer uma biópsia e depois ir para a cirurgia ou se tratando de uma suspeita muito grande, ir direto para a cirurgia, que foi o que foi proposto para ele. Provavelmente o Papa é muito saudável, porque fizeram uma lobectomia, tiraram um pedaço inteiro do pulmão dele, e como recuperação muito boa, que é um dos caminhos que a gente pode seguir.
Canção Nova Notícias — O que pode vir a seguir no tratamento do Papa?
Corassa — O que vai vir a seguir, em relação ao tratamento do Papa, depende muito do resultado da cirurgia. Tudo que a gente sabe da cirurgia foi pelo resultado de um exame que chama congelação intraoperatória. O que é isso? Um médico especialista chamado patologista, fica lá na sala da
cirurgia, ele tira um pedacinho e faz um processo de congelamento rápido e eles conseguem dar o diagnóstico: adenocarcinoma, algum outro tipo, ou, às vezes
só fala que é maligno e tem que esperar um pouquinho mais. Então, agora isso vai para um processamento um pouco melhor, eles vão saber o real tamanho, eles vão analisar se tem acometimento de outros órgãos, que não foram vistos anteriormente, sobretudo o que a gente chama de gânglios, que são algumas estruturas que a gente tem nessa parte próxima do coração. Se eventualmente, a gente tiver um tumor que é um pouco maior do que o esperado, ou tiver um acometimento de algum desses gânglios, a gente pode fazer um tratamento complementar. Existem alguns limites para a gente fazer isso, alguns cortes para gente determinar qualquer indicação ou não, que seria com quimioterapia. E aí tem algumas novidades: terapia, alvo, imunoterapia. Mas a gente ainda está muito precoce na história para dizer se tem qualquer coisa a ser feita. Se, por outro lado, é um tumor pequeno, sem gânglios acometidos, a cirurgia é curativa, o tratamento acabou e logo, logo ele vai voltar às funções normais dele.
Canção Nova Notícias — E por que o tratamento do Papa já começou com a cirurgia?
Corassa — Quando a gente tem um tumor que a gente não sabe se existe alguma indicação complementar de tratamento, é muito raro a gente ir direto para a cirurgia. A gente vai fazer o tratamento muitas vezes antes, com quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia. A gente tende a fazer o tratamento antes nesses casos. A gente vai para a cirurgia direto quando é um tumor pequenininho, quando é um paciente que provavelmente não vai precisar de nenhum tratamento complementar. Então a maior probabilidade é que o Papa não tenha nenhum tipo de tratamento complementar e que de fato seja um tumor muito inicial que foi descoberto em exames de rotina, seja um raio x, uma tomografia, algum exame que ele fez, talvez até por outro motivo.
Canção Nova Notícias — O histórico familiar de câncer na família do Papa pode ter colaborado para o diagnóstico?
Corassa — Pode colaborar sim a história familiar, né? Eu sempre digo que toda família tem uma história de doença, né? Por mais que muitas vezes não haja uma condição genética para causar câncer, como a gente vê em alguns casos, existe uma tendência. A gente não sabe se eles têm uma mutação de predisposição ou não, não foi noticiado, mas mesmo que eles não tenham, o fato de ter uma história familiar positiva é sempre importante. Na primeira consulta eu faço questão de perguntar sobre toda a história familiar de câncer, porque tem esse ponto de muitas vezes a gente tem uma história muito frequente de câncer de pulmão, por exemplo, talvez a gente tenha que eventualmente fazer uma tomografia, um rastreamento um pouco mais diferenciado em situações de exceção. Não é isso uma coisa que é para todo mundo, mas sim a história familiar, aumenta a probabilidade da gente ter esse diagnóstico.
Canção Nova Notícias — Doutor, para finalizar, o senhor com sua experiência, mesmo que à distância, como enxerga esse diagnóstico do Papa?
Corassa — Não é uma história triste. Triste seria se a gente tivesse descoberto isso muito para frente. Sendo um adenocarcinoma, tipo mais comum de câncer de pulmão, e se a doença é inicial, a maior probabilidade é que ele fique curado. Ter uma preocupação sobre si dessa doença é uma coisa que aí é um pouquinho diferente. É lembrar sempre que existem grupos de pacientes que têm um risco maior, sobretudo quem fuma e que tem que fazer o rastreamento. Mas de modo geral não é uma doença que é uma epidemia, pode estar relacionado a hábitos de vida, a história familiar, e também até mesmo a poluição do ar. Então, a gente não tem uma epidemia, mas é uma situação que a gente precisa saber que existe. Mas, para o Papa, especificamente, acho que a probabilidade maior é que fique tudo bem com ele, se Deus quiser.



