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PAZ

Não devemos perder a esperança, afirma Papa em entrevista

Em uma entrevista concedida ao programa italiano ‘Canale 5’ “Viagens do Coração”, o Santo Padre refletiu sobre o sofrimento da guerra e a importância da fé no projeto de Deus, apesar das desilusões da vida

Padre Davide Banzato / Foto: Reprodução Youtube

Da redação, com Vatican News

O Papa Francisco respondeu a 10 perguntas sobre os 10 anos de seu pontificado, numa entrevista concedida ao padre Davide Banzato, sacerdote da comunidade Novos Horizontes e apresentador do programa de TV italiano “Viagens do Coração”.

O programa especial foi ao ar no Canale 5, da Mediaset, na manhã deste sábado, 18. O Santo Padre foi entrevistado na Casa Santa Marta. Conforme explicado pelo padre Banzato, a ideia original deveria ser uma mensagem em vídeo para os produtores e a equipe do programa, mas se transformou em uma entrevista completa.

Não se apegar às coisas ruins

A conversa parte de um ponto caro ao Papa que é o da memória. “Uma graça”, diz ele: “Cultivar a memória… A graça da memória nos leva às raízes de nossa atualidade. Como a minha personalidade, que está para acabar a vida, de onde cresceu…”, acrescenta, recordando os seus familiares no Piemonte que visitou em novembro de 2022.

“Existem lugares significativos de memória, pessoas que marcaram nossa vida. É bom viajar”. Mas nesta viagem na memória e nas raízes há, no entanto, “um perigo”, adverte Francisco: “Todos nós já tivemos na vida: coisas ruins, coisas que nos fizeram sofrer, e depois há uma doença do apegar-se aos fracassos da vida: não, isso faz mal. Há coisas ruins sim, mas recordemos delas, agradeçamos ao Senhor que nos ajudou a sair (delas), mas não voltar para lá, porque isso é uma doença. É como (se fosse) um apego sim aos fracassos, às coisas ruins”.

Um momento de desolação humana

Das coisas ruins, observa Francisco, muitas estão acontecendo em nosso tempo. Viemos de uma pandemia que nos “enfraqueceu” e agora há a guerra: “Uma guerra que é feroz” e que provocou “uma crise econômica e financeira”. “Hoje, principalmente em toda a Europa, as pessoas não sabem como pagar a luz, por exemplo. Terão que economizar muito”, destaca o Papa. “É um momento ruim, é um momento de desolação humana. Os mortos ou os feridos (que vêm da guerra) se veem os mortos torturados antes da morte, as fotos são terríveis”.

O sorriso das crianças

A angústia do Bispo de Roma dirige-se sobretudo às crianças: “Esqueceram-se de rir… Muitas crianças vieram aqui, muitas da Ucrânia, não riem… São amáveis, sim, mas não riem, elas perderam isso. Fui encontrar as crianças que estavam no Bambino Gesù (Hospital da Santa Sé em Roma, ndr), ucranianas, feridas, ninguém (tinha) um sorriso”.

Para Francisco, “tirar o sorriso de uma criança significa… uma tragédia!”. E esta tragédia está marcando o nosso tempo: “Um tempo onde o negócio maior é a venda de armas, a fabricação de armas. Hoje, se por um ano – disse-me um técnico – não se fabricassem armas, acabaria a fome no mundo. Guerras pedem armas. E por que uma guerra? Porque normalmente um império ou um governo, quando enfraquece um pouco, precisa de uma guerra para se recuperar… Isso é ruim.”

Olhando horizontes diferentes

Neste cenário dramático, porém, o Papa exorta a não perder a esperança e a olhar para diferentes “horizontes”. “Olhar os horizontes da vida, assim, significa olhar para a esperança. E também ver que a história não acaba contigo, não acabou com meu avô, não vai acabar com a quarta geração que virá depois”. Esta perspectiva “dá a coragem para caminhar sempre”.

Mas atenção, adverte Francisco, para não cair na “psicologia do avestruz”, ou seja, que “antes de qualquer coisa põe a cabeça na terra”. E atenção também no olhar apenas para o próprio umbigo: “Quem só olha para si mesmo, faz o oposto de olhar para o horizonte. O horizonte te faz olhar para tudo”.

Esta, afirma o Pontífice, é “a base da virtude da esperança”. ”Como diziam alguns Padres da Igreja que prefiguravam a esperança como uma “âncora”: “Quer estejas no mar, quer estejas no rio e lanças a âncora para estar seguro e agarras-te à corda. A esperança, tu a lanças na eternidade, a âncora, e te agarras; mas se tu não olhas para o horizonte, não podes mais, nunca poderás lançar uma âncora, certo?”.

“Neste tempo é difícil”, sublinha o Papa Francisco, por isso “há o Senhor, há esperança. É difícil e feio, há tanto sofrimento, tanto, mas também existe a corda e a âncora. É o mistério de dor e da esperança”.

Quem tem fé e quem não a tem

E aos que “não têm fé”, o que dizer? “Não é um pecado não ter fé”, responde o Papa, “a fé é um dom de Deus… Há pessoas boas, muito boas, que não têm o dom da fé. Apenas digo a uma pessoa assim: ‘esteja aberta. Busque. Não te canses de buscar. Sem angústia: não, não! Naturalmente aberta'”.

Quem crê deve estar atento, porém, para não viver “como ‘pagão'”. Há crentes que vivem assim: “Falsos cristãos ou, como dizia minha avó, cristãos de água de rosas”. “A estes diria: ‘Mudem de vida! Como está a tua vida? É uma vida justa? É uma vida a serviço os outros? É uma vida que desperdiça dinheiro?”.

Riqueza não é pecado

Daí uma reflexão sobre o tema da riqueza: “Um senhor me dizia que aqui em Roma há restaurantes onde, se convidares duas pessoas, no final sai por 1.700 euros. Mas tu vives assim, nesse nível, quando tem gente morrendo de fome? ‘Eh, padre, não seja comunista…’. Não, espera um pouco, isso é o Evangelho, hein?’”.

“Não estou falando mal dos ricos, há ricos santos que sabem usar bem os seus bens em favor dos outros”, esclareceu Francisco. Mas também as “condutas” definem o tipo de fé: “Se o estilo de vida é pagão, entende-se que não tem fé ou que tem fé de verniz, de verniz, sim: a tua vida é envernizada com fé, mas (a fé) não tem raízes, não?”.

A este propósito, o Papa cita a fotografia tirada por um dos “fotógrafos vaticanos” em uma rua de Roma, de uma senhora idosa bem vestida que sai de um restaurante e ignora o mendigo que lhe pede uma esmola: “Se tu não percebes algo ou alguém por trás da tua vaidade, do teu modo de viver, tu estás fechado em ti mesmo…” A “carne do teu irmão” é “a a mesma carne tua”, sublinha o Pontífice: “Talvez amanhã serás tu naquela posição… Não tenhas medo de tocar a carne ferida.”

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