Imunização começa no dia 17 de janeiro, ainda em caráter experimental; a princípio, vacinação acontecerá em três cidades
Aline Imercio
De São Paulo

Foto ilustrativa / Canva Pro
A vacinação contra a dengue com a vacina brasileira, produzida pelo Instituto Butantan, começa no país a partir do dia 17 de janeiro, mas ainda em caráter experimental. A imunização vai acontecer em três cidades: Maranguape (CE), Nova Lima (MG), a partir do dia 17, e em Botucatu (SP), a partir do dia 18, além de alcançar alguns profissionais que atuam nas Unidades de Atenção Primária de Saúde. Quando for aberta ao público geral, a vacina será destinada ao público de 12 a 59 anos.
A equipe do Jornalismo Canção Nova em São Paulo conversou com o pediatra, infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, sobre este tema.
Qual é a expectativa para o início da vacinação contra a dengue no país?
Renato Kfouri – A dengue é um problema crescente em todo o mundo e a produção hoje do único laboratório que tem uma vacina aprovada, o laboratório japonês Takeda, é insuficiente para atender uma demanda do mercado mundial. A aprovação de mais uma vacina contra a dengue amplia o acesso de uma população maior, e o que é melhor, duas grandes vantagens. A primeira, é uma vacina brasileira desenvolvida com uma tecnologia nacional pelo Instituto Butantan, que tem uma resposta em termos de proteção muito semelhante à vacina japonesa, e talvez a maior vantagem é que é uma vacina em dose única. A vacina japonesa é uma vacina aprovada em duas doses, com intervalo de três meses, enquanto a vacina brasileira do Butantã é uma vacina em dose única. Nós temos uma facilidade, uma oportunidade de vacinar mais pessoas com o mesmo quantitativo de doses. E, obviamente, nós temos aí também a condição de obter um esquema completo vacinal, um número muito maior de pessoas.
Como está a distribuição das doses?
Renato Kfouri – O Butantan já produziu até o momento, somente 1,3 milhão doses, antes da aprovação, já foi iniciada uma produção que o Ministério da Saúde, através da Câmara Técnica de Imunizações, nós recomendamos que fossem utilizados nos profissionais que atuam nas áreas de ação de dengue no território e os agentes de saúde, serão cerca de 900 mil agentes de saúde que serão vacinados e outra quantidade será disponibilizada para realizarmos um estudo em três municípios aqui no Brasil, para que a gente possa entender qual é o impacto que essa vacina terá na vida real. Vão ser: Botucatu, em São Paulo, em Maranguape, no Ceará, e Nova Lima, em Minas Gerais. Nesses três municípios nós vamos poder entender como que se controlaria uma doença, vacinando que porcentagem da população que nós conseguiríamos obter um melhor resultado.
Então, lembrar que, para a população de uma maneira geral, a vacina não estará disponível este ano ainda, talvez só no segundo semestre, quando incrementar a produção. Mas essa introdução é feita num primeiro momento nesses três municípios, para realização de um estudo e na população, nos agentes comunitários que atendem as áreas de endemias, para que esses indivíduos também fiquem protegidos. E esperamos que, com a Associação ou com a parceria com o laboratório chinês, assinada já entre o Butantan e o Laboratório chinês, a gente possa trazer uma quantidade, quem sabe ainda esse ano, para começarmos a vacinar a população em geral.
Houve alguma razão para a escolha desses três municípios?
Renata Kfouri – Os municípios foram escolhidos de acordo com a capacidade que têm de vacinar. Botucatu já sediou um estudo de vacina da Covid-19, tem experiência no local e nos outros municípios, obviamente, são os municípios onde tem uma incidência grande de dengue e nós temos condições de realizar uma boa vigilância, tanto clínica, quanto laboratorial da doença.
Qual é a eficácia dessa vacina?
Renata Kfouri – A vacina tem uma eficácia na prevenção da doença em torno de 70 a 80%. Os indivíduos vacinados têm uma chance de 70% menor de pegar a dengue. De agravamento, ela chega perto de 90% de eficácia. Ou seja, o indivíduo que, mesmo vacinado, por acaso, adquirir dengue, se a vacina falhar naqueles 30%, para esse indivíduo a chance de ele ter uma forma grave da doença reduz em 90%. Nós estamos aí reduzindo a perspectiva de visitas a serviços de emergência, dessas grandes epidemias e, obviamente, hospitalizações e mortes.
Lembrar que a vacina não é 100% eficaz, portanto, os outros cuidados devemos manter. A vacina não é para toda a população, ou seja, nós temos que continuar controlando o vetor, o que exponencia o número de casos é essa combinação perversa: muito mosquito e muita gente doente. Muitos mosquitos, encontrando facilmente pessoas doentes, acelera a transmissão. Nós precisamos inverter essa lógica. Precisamos baixar a população de mosquito e baixar o número de doentes através da vacinação, para que essa combinação caminhe no sentido contrário. Menos mosquitos, encontrando menos pessoas doentes, menores taxas, menor força da infecção na população.
Então essa vacina já sinaliza uma esperança na redução de casos?
Renato Kfouri – Nós contamos com a vacinação em larga escala para que a gente possa atingir um impacto. Não será vacinando 5 ou 10% da população brasileira que obteremos algum impacto em termos de controle de doenças. Nós precisamos vacinar uma porcentagem significativa. Nós ainda não conhecemos um número exato, mas há uma probabilidade de, ao vacinarmos, por exemplo, 50%, 60% da população, nós consigamos diminuir de uma maneira muito importante o número de doentes, de maneira a proteger os mesmos não vacinados. O mosquito, encontrando menos pessoas doentes, acabam transmitindo menos e reduzindo a doença naquela imunidade ou naquele efeito de rebanho que nós chamamos, vacinando uma boa parte da população a outra acaba se beneficiando.
Lembrando que as crianças estão fora dessa taxa, dessa faixa etária, de vacinação, gestantes, idosos. Portanto, é fundamental vacinar o maior número possível de pessoas, dentro da faixa licenciada, para que a gente consiga obter esse efeito indireto da vacinação, que é a proteção daqueles que ainda nem foram vacinados.
Por que os idosos não estão inclusos nessa faixa etária de vacinação?
Renato Kfouri – Ambas as vacinas da Takeda e do Butantã foram estudadas em adultos até 60 anos de idade. Então por isso, neste primeiro momento, a vacina foi aprovada e licenciada a indivíduos adultos menores de 60. Os estudos em indivíduos acima de 60 anos estão ocorrendo e esperamos que, em breve, ambas as vacinas possam ser utilizadas numa população que tem as maiores taxas de letalidade. O risco de morte aumenta muito com a idade no caso da dengue. Então, aprovarmos vacinas também para idosos, para indivíduos com 60 anos ou mais, é uma necessidade que nós vamos precisar desses estudos para aprovação e utilização nesta população.
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