Padre que atua junto à Caritas analisa a presença do Papa junto a realidades sociais diversas, o que não é mero protocolo, mas a tradução viva da Doutrina Social da Igreja
Jéssica Marçal
Da Redação

Vista aérea mostra um mural retratando o Papa Leão XIV em Claypole, nos arredores de Buenos Aires, Argentina, onde fica o Cotolengo que receberá o Papa / REUTERS/Agustin Marcarian
Em sua viagem à América do Sul, de 6 a 17 de novembro, o Papa Leão XIV conhecerá de perto algumas realidades sociais presentes no Uruguai, na Argentina e no Peru. A programação inclui visitas a centros de assistência, presídio e bairros periféricos, ocasiões em que o Papa sempre leva o seu carinho de pastor e expressa a proximidade da Igreja a tantas pessoas que muitas vezes são colocadas à margem da sociedade.
“A primeira questão que eu diria é que as visitas papais a estas realidades não são meros atos de protocolo, mas é a tradução viva da Doutrina Social da Igreja”. Quem afirma é o vice-diretor da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, padre Marcelo Maróstica Quadro. Ele lembra que a opção preferencial pelos pobres tão pregada pela Igreja está implícita à fé cristológica, como disse o Papa Bento XVI na abertura da Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe, em 2007, em Aparecida.
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Padre Marcelo enfatiza que essas visitas lembram que a pessoa que vive em situação de vulnerabilidade não é objeto de pena, mas sujeito de direito e de justiça social. Também mostram que a Igreja deve ir até onde a dor está. “Um Papa caminhar numa favela, numa prisão, num campo de refugiado, ele inverte a lógica do poder mundial e demonstra que também a Igreja não está voltada para os centros de poder, pelo contrário, mas na periferia, onde está o povo. E poderíamos dizer que esta visita à realidade social é lançar o olhar de Cristo.”
O valor do trabalho caritativo
Outra dimensão observada pelo sacerdote é que a presença do Papa junto a essas realidades também legitima o trabalho diário da caridade local. Ele recorda que a Igreja é a grande rede de caridade do mundo, os trabalhos são contínuos e cansativos, mas muitas vezes invisíveis. “Agora, quando o Papa visita esse território, ele está dizendo expressamente àqueles voluntários, àqueles religiosos, àqueles que estão à frente do trabalho, que aquele trabalho importa para toda a Igreja.”
O impacto disso, segundo padre Marcelo, é a renovação das forças institucionais e pastorais, conferindo novo ânimo e “combustível” àqueles que estão na linha de frente. “Ao mesmo tempo, percebemos que a visita do Papa vai jogar refletores do mundo sobre aquela realidade. E, muitas vezes, aquela realidade não consegue dialogar com o poder público local.”
As obras sociais no roteiro do Papa
No Uruguai, Leão XIV terá um encontro com a realidade social de Casavalle, região periférica e carente, onde há uma grande presença da Igreja Católica. O encontro será na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe.
Na Argentina, o roteiro do Papa o levará até a cidade de Claypole, onde ele visitará profissionais e assistidos do “Pequeño Cottolengo Don Orione”. Os pequenos cotolengos são lares voltados ao acolhimento de pessoas com deficiências graves e sem amparo familiar, uma iniciativa que começou com São Luís Orione. A obra de Claypole acolhe, atualmente, cerca de 400 pessoas com múltiplas deficiências, oferecendo moradia e assistência contínua. Ainda na Argentina, Leão XIV visitará o complexo penitenciário federal de Buenos Aires.
Já no Peru, o Pontífice participará de um encontro sobre os desafios e esperanças para o futuro do povo peruano. Também terá a oportunidade de falar aos missionários e representantes de povos da Amazônia, além de visitar os operadores e assistidos do Centro de Acolhimento das “Hermanitas de Los Ancianos Desamparados”.
Uma caridade transformadora
Indo ao encontro dessas realidades, padre Marcelo avalia que a provocação que o Papa faz é sobre a urgência de passar de uma caridade meramente assistencial, que é importante, para uma caridade transformadora, que gere justiça. A sociedade global, muitas vezes, tem escolhas econômicas excludentes, afirma o sacerdote, de forma que a miséria não é um acidente.
“Podemos dizer que a provocação final é que os fiéis não olhem a visita de um Papa apenas como um evento bonito, religioso, mas que sejam provocados a uma fé concreta. Podemos até dizer que a visita do Papa questiona a toda a sociedade o seguinte: o que nós estamos fazendo pelas periferias que estão ao lado da nossa casa? O que nós estamos fazendo por aqueles que estão sofrendo? Então, eu acho que a grande provocação é pensar realmente numa caridade transformadora.”, conluiu.




