Na última Santa Missa presidida durante sua viagem à França, Leão XIV apontou perdão e reconciliação como caminhos para a paz
Julia Beck
Da Redação

Papa durante Santa Missa em Metz, na França, nesta segunda-feira, 28/ Foto: REUTERS/Christian Hartmann
A Santa Missa celebrada na Catedral de Santo Estêvão, em Metz, foi o último compromisso do Papa Leão XIV na França antes da cerimônia de despedida e do retorno ao Vaticano, nesta segunda-feira, 28. Na homilia, o Pontífice recordou a história da região, marcada pelo encontro entre povos e também por conflitos, e afirmou que, naquela terra que já foi uma “fronteira dolorosa” na Europa, a promessa de Deus ressoa hoje “com uma força singular”.
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Deserto, jardim e casa
Ao comentar a primeira leitura (cf. Is 32,15-18), Leão XIV destacou que o profeta Isaías apresenta a vinda do Reino de Deus a partir de três elementos — direito, justiça e paz — representados pelas imagens do deserto, do jardim e da casa.
“No deserto, lugar de sobriedade e silêncio, instaura-se o direito, ou seja, a lei que ajuda o homem a avançar no caminho do bem”, afirmou. Segundo o Papa, a imagem recorda a importância do essencial e da simplicidade, que ajudam a atribuir o justo valor às coisas.
A segunda imagem é a do jardim, onde reina a justiça. Se o deserto representa o essencial, explicou, o jardim remete à beleza e aos frutos de uma vida reta, que permite à pessoa realizar-se plenamente segundo os desígnios de Deus.
Já a casa representa a paz e exige a participação humana. “Assim, a paz, que é um dom de Deus, exige uma resposta por parte dos homens, num esforço partilhado”, observou. Mais do que uma construção de pedras, acrescentou, a casa é lugar de presença e amor, recordando que a concórdia se constrói na caridade, na partilha e no perdão.
Perdão diante da violência
Leão XIV citou o Evangelho ao afirmar que, diante de um mundo marcado pela violência, manipulação e arrogância, Jesus mostra como transformar o deserto em oásis, cultivar jardins e construir casas. O caminho indicado por Cristo passa pelo perdão, pela misericórdia e pela magnanimidade.
“Para alguns, estas palavras podem parecer um sinal de fraqueza, ou talvez uma rendição diante do mal; mas, na verdade, não é assim”, ressaltou. Dirigindo-se aos habitantes de uma região marcada no passado por conflitos, acrescentou: “Sabeis bem que não é verdade que quem se vinga é mais forte do que quem perdoa”.
Citando a história de Metz e do Mosela, o Papa destacou que a região mostra que a reconciliação é possível quando há coragem para romper a cadeia do ressentimento. Diante da injustiça, ressaltou, o caminho de salvação passa pelo amor que cuida do outro e procura oferecer confiança, mesmo diante de comportamentos difíceis de aceitar.
Raízes espirituais da Europa
Ao recordar Santo Agostinho, o Pontífice afirmou que a paz entre os homens pressupõe que cada pessoa reconheça e respeite a dignidade do outro. Leão XIV relacionou essa visão às raízes espirituais e morais da Europa, construídas também pela contribuição de homens e mulheres que viveram e transmitiram o Evangelho.
Entre os princípios herdados dessa tradição, citou a primazia da pessoa, o caráter sagrado e inviolável da vida humana em todas as suas fases e circunstâncias, a liberdade, a importância da família, a atenção aos pobres, o acolhimento dos estrangeiros e o respeito pelos idosos.
“Harmonia das diferenças”
O Papa também tomou a Catedral de Santo Estêvão como imagem dessa vocação. Conhecida como Lanterne du Bon Dieu (“Lanterna do Bom Deus”) pela extensão de seus vitrais, a igreja reúne obras de diferentes períodos, entre elas as de Marc Chagall. Para o Santo Padre, a presença das obras do pintor judeu faz da Catedral um símbolo de diálogo ecumênico e inter-religioso.
“A luz do Senhor não apaga as especificidades, mas une histórias e culturas diversas num único e maravilhoso mosaico de paz”, afirmou. A partir dessa imagem, o Pontífice ressaltou que “o futuro da Europa não reside na uniformidade, mas na harmonia das diferenças”.
Ao concluir sua homilia, Leão XIV manifestou o desejo de que a comunidade de Metz seja “um farol de esperança” para o país, para a Europa e para o mundo.




