Em discurso durante conferência em Metz nesta segunda-feira, 28, Leão XIV retomou raízes do continente e refletiu sobre legado do Venerável Robert Schuman
Gabriel Fontana
Da Redação, com Boletim da Santa Sé

Papa Leão XIV discursa no Centro de Congressos Robert Schuman / Foto: REUTERS/Remo Casilli
Após o encontro inter-religioso no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz, o Papa Leão XIV participou de um congresso intitulado “Nas raízes da Europa pela paz e unidade” nesta segunda-feira, 28.
O título do evento, observou o Pontífice, é inspirado no Venerável Robert Schuman, que também dá nome ao centro de congressos. Em meio às instabilidades do século XX, foi o político francês que ajudou a moldar a Europa contemporânea por meio de sua Declaração de 9 de maio de 1950.
Retomando a história do continente, o Santo Padre afirmou que, antes mesmo de ser uma realidade geográfica, a Europa entende-se como uma realidade cultural e histórica. “Ao longo dos séculos, ela foi adquirindo novos contornos e definições, passando por períodos de crescimento, crises profundas e novos renascimentos”, pontuou.
Cristianismo na Europa
Neste contexto, Leão XIV recordou “outro pai da Europa”: São Bento, proclamado padroeiro do continente por São Paulo VI, em 1964, e considerado pai do monaquismo ocidental. Segundo o Papa, muitas áreas foram profundamente afetadas por São Bento e pelos seus monges, da ajuda aos pobres e vulneráveis à educação, da saúde à arquitetura e engenharia, da ciência à política.
“Desse modo, não é possível falar da Europa sem fazer referência ao cristianismo”, expressou o Pontífice. Ele recordou os ensinamentos de Schuman, que destacou como a fé cristã ensinou a igualdade de natureza entre todos os homens, filhos do mesmo Deus, redimidos pelo mesmo Cristo, sem distinção de raça, cor, classe ou profissão. Segundo o político, “a lei universal do amor e da caridade fez de cada homem o nosso próximo, e é nela que, desde então, assentam as relações sociais no mundo cristão”.
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O Santo Padre retomou o artigo 17 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que incentiva um diálogo aberto, transparente e regular com as Igrejas. “A laicidade que rege a vida dos Estados não implica apenas o caráter não confessional das instituições civis, mas pressupõe uma verdadeira colaboração entre as partes, bem como o respeito pela autonomia das Igrejas, a promoção da sua liberdade de organização, expressão e culto por parte das autoridades estatais e comunitárias”, declarou.
Dignidade da pessoa humana
Em seguida, Leão XIV frisou a necessidade social e política de redescobrir o papel central da pessoa humana, conferindo uma consistência real a palavras como liberdade, democracia, paz e unidade. O duplo movimento de redescoberta e diálogo, sinalizou, permite restabelecer um adequado equilíbrio entre os próprios direitos, bem como entre direitos e deveres.
Recordando sua visita às Ilhas Canárias, na Espanha, o Papa falou sobre a questão migratória e destacou que “a dignidade humana exige vias legais e seguras, resgate e assistência, cooperação concreta contra os traficantes, proteção efetiva às vítimas, processos sérios de acolhimento e integração, e políticas que permitam a cada pessoa viver com dignidade na sua própria terra”.
O Pontífice salientou que acolher uma pessoa significa integrá-la como se fosse da própria família, oferecendo-lhe a possibilidade de desenvolver os seus talentos, capacidades e sensibilidade, mas também de entrar no espírito da casa que a acolhe. “A universalidade dos valores basilares da Europa garante-nos que este diálogo é possível e que poderá proporcionar uma base sólida às nossas sociedades, permitindo-nos agir de forma mais eficaz em prol da paz e de um mundo reconciliado”, complementou.
Promover a paz
Segundo o Santo Padre, foi precisamente esta lucidez que inspirou homens como Schuman a superar a oposição entre as identidades culturais e a dar vida às instituições europeias no final da Segunda Guerra Mundial.
“Tendo crescido num contexto em que o orgulho e o espírito de vingança pareciam prevalecer, Schuman empenhou-se pela paz e fraternidade entre os povos que, após um longo período de confrontos entre si, reconheceram finalmente que precisavam uns dos outros”, manifestou Leão XIV.
Ele salientou o profundo desejo de paz que havia em Schuman e denunciou o “massacre inútil” que acontece nos dias atuais, que causa inúmeras vítimas civis. “É necessário empenhar-se num diálogo paciente, demonstrar coragem nas negociações e estar disposto a sacrificar algumas posições em prol do bem maior da paz”, ressaltou o Papa.
O Pontífice afirmou que a busca pela paz não deve ser confundida com um “irenismo ingênuo”, mas também alertou para a “ilusão do rearmamento”, salientando o ensinamento de Schuman sobre a necessidade de promover esforços criativos à altura dos perigos enfrentados. “Promover a paz é uma tarefa ativa”, frisou.
Pequenos passos
O Santo Padre também destacou o direito internacional e o multilateralismo, “melhor antídoto contra a vontade de dominar que está na origem de cada disputa”. Diante da mentira e do engano, a Europa pode pôr fim ao ciclo de violência por meio do respeito pelo outro que soube cultivar e preservar.
“Não devemos nunca perder a confiança na nossa capacidade de progredir, mesmo que os passos dados sejam, por vezes, pequenos e quase imperceptíveis”, lembrou Leão XIV. “É com pequenos passos que se pode dar vida a esta solidariedade concreta, que implica que ninguém se sinta abandonado ou esquecido”, afirmou.
No fim de seu discurso, o Papa exortou os jovens a terem a coragem de viver com responsabilidade a missão de construir a paz. “Não vos submetais à lógica da violência e da opressão. Amai a vida em cada momento e não tenhais medo do futuro. (…) Sede construtores de comunidade e, convosco, a Europa, solidamente enraizada, continuará a florescer e a inspirar o mundo inteiro”, concluiu.




