Gêmeos médicos contam com profunda devoção popular no Brasil, ligada a elementos sincréticos e tradições que atravessam séculos
Gabriel Fontana
Da Redação
Detalhe de ícone ortodoxo de São Cosme e São Damião
A Igreja celebra neste sábado, 26, a memória de São Cosme e São Damião. Os gêmeos contam com uma grande devoção no Brasil, sendo dois dos santos mais populares do país.
O professor universitário e fundador da Academia Brasileira de Hagiologia, José Luís Lira, explica que São Cosme e São Damião viveram na região da Cirenaica e Cilícia (atual Turquia e Síria) e atuavam como médicos, ajudando a cuidar da saúde dos doentes sem cobrar nada em troca.
Lira detalha ainda que São Cosme e São Damião sofreram o martírio por volta do ano 303, durante a perseguição imposta pelo imperador Diocleciano. Na Legenda Áurea compilada pelo Beato Tiago de Vorágine, arcebispo dominicano que viveu no século XIII, narra-se que os irmãos sofreram diversas tentativas de execução, até que morreram decapitados junto a outros três irmãos menores: Antimo, Leôncio e Euprépio.
Devoção no Brasil

Professor José Luís Lira / Foto: Arquivo pessoal
A devoção a São Cosme e São Damião chegou ao Brasil no século XVI, por meio dos colonizadores portugueses. O professor Lira indica que o culto oficial institucionalizou-se em 1535, com a fundação de uma igreja em Igarassu (PE) — até hoje, ela permanece como o mais antigo templo católico dedicado aos santos ainda em atividade no Brasil.
Com o passar do tempo, a imagem de São Cosme e São Damião passou por uma profunda transmutação cultural devido ao sincretismo com religiões de matriz africana. “Esse fenômeno foi motivado primariamente pelas severas restrições de culto impostas aos africanos escravizados, que precisavam camuflar suas divindades sob a roupagem dos santos católicos autorizados pela Coroa”, explica o professor.
No candomblé de nação ketu, os santos foram associados aos Ibejis, divindades gêmeas que representam a dualidade, a alegria e a infância. “Por causa dessa associação, as oferendas rituais de alimentos [aos Ibejis] foram gradativamente assimiladas à prática popular da entrega de doces”, assinala Lira.
Na umbanda, foi incluída a figura de Doum, uma terceira criança que atua como o elo infantil definitivo na linha dos espíritos infantis. Segundo o professor, esse processo sincrético alterou radicalmente a própria iconografia dos santos no território brasileiro. As imagens populares e estatuetas comerciais quase sempre os representam como duas crianças, enquanto a tradição europeia os retrata, historicamente, como médicos adultos.

Comparação entre tradicional representação de São Cosme e São Damião no Brasil (à esq.) e ícone polonês (à dir.) / Imagens: Reprodução
Exemplos de fidelidade e caridade

Padre Rodrigo Brum / Foto: Arquivo pessoal
O pároco da Paróquia São Cosme e São Damião em Andaraí, no Rio de Janeiro (RJ), padre Rodrigo Brum, destaca a fidelidade e a caridade como principais virtudes dos santos gêmeos. “São Cosme e São Damião são tão amados por todos nós, devotos, porque eles amaram Jesus até ao fim, e amar a Jesus até o fim significa ser fiel à proposta de Cristo, à proposta do Evangelho”, salienta.
Foi justamente essa caridade que levou os irmãos médicos a exercerem sua profissão de maneira gratuita. Ao acolher quem necessitasse de ajuda médica, padre Rodrigo indica que São Cosme e São Damião ensinam que a fé nunca segrega ou separa, mas une.
“Viver a devoção a Cosme e Damião é se aproximar daquilo que alimentaram sua fé, ou seja, os sacramentos, a Eucaristia, a Reconciliação, a Palavra de Deus”, expressa o sacerdote.
Dia 26 ou dia 27 de setembro?
No Rio de Janeiro, é um costume popular a distribuição de doces no dia 27 de setembro. Padre Rodrigo Brum explica que é possível realizar esse gesto como forma de gratidão pela intercessão de São Cosme e São Damião. “O principal, que nós não podemos esquecer, é nos aproximar de Jesus, que se deixa por nós ser encontrado na Eucaristia, na Palavra e na presença do irmão”, salienta.
Já a festa litúrgica dos santos é celebrada, na Igreja Católica, no dia 26. O professor Lira explica que essa diferença é o resultado de uma reforma litúrgica institucional.

Basílicas dos Santos Cosme e Damião / Foto: Riccardov via Wikimedia Commons
Originalmente, a festa litúrgica era celebrada em 27 de setembro em memória da dedicação da Basílica dos Santos Cosme e Damião, no Fórum Romano, pelo Papa Félix IV. Após o Concílio Vaticano II, a Igreja buscou organizar as memórias dos santos para evitar sobreposições, e como essa data coincidia com a morte de São Vicente de Paulo, a memória litúrgica de São Cosme e São Damião foi antecipada para 26 de setembro.
“A mudança clerical não alterou o tecido social brasileiro”, observa o professor. “O dia 27 de setembro já estava indexado há séculos na cultura popular e religiões de matriz africana”. Assim, explica Lira, a celebração da memória litúrgica acontece na data estabelecida no Calendário Romano Geral, mas as iniciativas populares e ligadas a outras crenças permaneceram acontecendo no dia 27.




