Viagem apostólica

Papa na França: proteção da vida e da paz marca discurso a autoridades

Leão XIV reiterou a defesa da vida, que está no lema de sua viagem, e tocou em pontos como a laicidade do Estado e a ética no progresso tecnológico

Jéssica Marçal
Da Redação

Leão XIV durante seu discurso às autoridades francesas / Foto: Teresa Suarez/Pool via REUTERS

A proteção da vida, a promoção da paz, a ética em torno do progresso científico e tecnológico e o real significado da laicidade do Estado foram alguns dos pontos centrais do primeiro discurso do Papa Leão XIV em sua viagem à França. O primeiro compromisso do Pontífice, que chegou à capital Paris nesta sexta-feira, 25, foi no encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático realizado no Palácio do Eliseu. 

Leão XIV manifestou sua alegria com esta viagem e assegurou que a França está muito presente nas orações do Papa.  Destacou que há séculos o país brilha como um farol cultural, artístico e espiritual não dó da Europa, mas em todo o mundo. Uma iluminação que mostra até que ponto as ciências, artes, literatura e filosofia podem contribuir para o bem da humanidade, desde que orientadas para que o mundo tenha vida.

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O Papa fez referência às ricas raízes cristãs da França. Citou, em especial, a grande obra de restauro da Catedral de Notre-Dame de Paris e sua recente reabertura para visitantes e celebrações do culto divino. “Não é apenas o coroamento de uma proeza técnica, mas o símbolo de uma esperança reencontrada, a prova de que aquilo que se pensava estar destruído para sempre pode renascer graças à colaboração de todos, o testemunho de uma unidade alcançada por meio do esforço comum.”

A defesa da dignidade da vida humana

Leão XIV frisou como a França se desenvolveu haurindo no cristianismo um gênio espiritual, cultural, intelectual, artístico e missionário que hoje resplandece em todo o mundo. Citou que, em Paris, foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos do Homem, sendo que um francês – o jurista e Prêmio Nobel da Paz René Cassin – desempenhou um papel de primeiro plano, buscando criar uma consciência geral da dignidade inalienável da pessoa humana. São João Paulo II, por exemplo, considerou este documento como uma “pedra miliária no caminho do progresso moral da humanidade”.

Segundo Leão, essa questão do respeito da dignidade humana e dos direitos e liberdades fundamentais deve acompanhar a evolução da sociedade e o progresso técnico. Observando que, ao longo dos séculos, o desenvolvimento tecnológico trouxe contribuições, mas também danos quando não orientado para o bem, o Papa lembrou que ele quis abordar em sua primeira encíclica o tema da inteligência artificial, colocando a pessoa humana no centro.

“Para não perdermos a nossa humanidade no meio do ‘paraíso das máquinas’, que invade e condiciona o nosso cotidiano, é urgente formar os espíritos para um discernimento ético, capaz de distinguir o que é moralmente bom.” E acrescentou: “Reafirmo ‘com veemência que a salvaguarda do direito à vida constitui o fundamento imprescindível de todos os outros direitos humanos’”.

Tecnologia, laicidade do Estado, diálogo  

Ainda falando sobre ciência e tecnologia, Leão XIV destacou que quando estas não são orientadas pela consciência, podem até propor soluções imediatas, mas acabam desviando homens e mulheres do bem a que eles aspiram. “Por vezes, constato com preocupação os desvios atuais das sociedades, que correm o risco de deturpar a ciência e a tecnologia, transformando-as em empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, o tráfico de órgãos ou a oferta de uma morte programada.”, lamentou.

O Papa frisou, então, que o respeito e a proteção da vida de uma pessoa são responsabilidade de todos e começam com a conversão da inteligência e do coração. Neste ponto, abordou também a expressão da verdadeira laicidade da cidade terrena. Ele lembrou que o cristão envolvido na vida pública não pode ser considerado uma ameaça à unidade da pátria, uma vez que a laicidade não exclui a dimensão religiosa, mas sabe valorizá-la como um recurso educativo.

“É precisamente por isso que a escola católica tem o seu lugar no panorama educativo de um país como a França. (…)  Uma correta laicidade não consiste, portanto, em excluir a religião do espaço público ou do ensino, mas em trabalhar em prol do diálogo entre o Estado e as instituições religiosas, para que unam forças ao serviço do bem comum, para que o mundo tenha vida.”

Construir a paz com diálogo e justiça

Por fim, o Papa se concentrou no flagelo da guerra. “Não podemos permanecer indiferentes perante tais sofrimentos, que ferem a dignidade humana e clamam justiça a Deus. A gravidade destas situações deve interpelar-nos, convidando cada um, onde quer que se encontre, a uma verdadeira conversão do coração e a uma mudança de atitude.”

Citando São João XXIII, o Papa lembrou que a justiça, a reta razão e o sentido da dignidade humana exigem que se pare com essa corrida ao poderio militar. Erroneamente, observou, difunde-se cada vez mais a convicção de que a posse de armas nucleares constitua uma garantia de segurança. “Na verdade, a paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça.”, explicou.  

“Exorto-vos, portanto, a nunca vos resignardes à perspectiva de uma guerra, considerando-a “inevitável”, mas a promover incansavelmente o diálogo e a diplomacia, a fim de preservar sociedades pacíficas, respeitadoras da dignidade e dos direitos da pessoa e dos povos. Perante os rumores de guerra e as crises multifacetadas que abalam o nosso mundo, a França tem a vocação de continuar a ser uma artífice incansável da paz e do multilateralismo, especialmente no interior da nossa querida Europa.”

Liberdade, fraternidade e igualdade

Convidando a França a trilhar um caminho para uma paz desarmada e desarmante, Leão XIV encerrou seu discurso, evocando o lema nacional de liberdade, fraternidade e igualdade. “Que a vossa liberdade cresça incessantemente no cuidado pelo bem comum; que a vossa fraternidade abrace toda a humanidade; e que a igualdade a que aspirais se baseie sempre nos alicerces da justiça e da caridade, sem suprimir as diferenças entre as pessoas, mas fazendo-as frutificar harmoniosamente em benefício de toda a sociedade.”

 

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