Por oito anos e meio, padre Eder Pires foi missionário na França, país que se prepara para receber o Papa Leão XIV
Jéssica Marçal
Da Redação

Imagem de Nossa Senhora de Lourdes, uma forte devoção mariana originária da França e que se espalhou pelo mundo / Foto: Jean-Christophe Chartre / Hans Lucas via Reuters Connect
“Para que o mundo tenha vida” é o tema escolhido para a viagem do Papa Leão XIV à França de 25 a 28 de setembro. A Igreja no país enfrenta o desafio da secularização, mas ao mesmo tempo assiste a um despertar espiritual, principalmente entre os jovens.
Educação e cultura estarão em evidência, sobretudo com a visita à sede da Unesco em Paris. Mas também estão previstos momentos de profunda espiritualidade, como a visita a Lourdes, centro de fé e devoção.
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Missionário da Comunidade Canção Nova, padre Eder Pires morou por oito anos e meio na França, de 2017 a meados de 2025. Em entrevista, ele partilha as realidades que viu quando esteve por lá e comenta o contraponto que tem sido o crescimento do número de catecúmenos frente aos desafios da secularização. Leia abaixo ou assista ao vídeo:
noticias.cancaonova.com – Padre, o senhor morou na França de 2017 até meados de 2025, ali na região sul do país, em Toulon. O que o senhor pôde testemunhar ao longo deste período sobre a vivência da fé neste país onde a Igreja enfrenta o desafio da secularização?
Padre Eder – Em primeiro lugar, é bem distante da nossa realidade de Brasil. Um coisa simples: no Brasil eu, como padre, estou andando na rua e as pessoas pedem sempre “bênção, Padre”, “Padre, sua bênção”. Lá já não existe isso, o que é fruto realmente da secularização que vem desde o século XVIII, um pouco antes até mesmo, com as ideias iluministas, mas principalmente com a Revolução Francesa. Então, até hoje, resquícios da Revolução Francesa existem na sociedade, que continua com essa ideia até errada daquilo que é o Estado Laico e tudo mais. Mas realmente é um país onde a secularização cresce; mas existem sinais de esperança em meio a tudo isso.
noticias.cancaonova.com – Apesar da secularização, têm-se falado, por outro lado de um crescimento da fé na França. Um dado que pode ilustrar é o crescente número de catecúmenos que receberam o Batismo na última Páscoa. Como esses sinais podem ser lidos à luz dessa realidade, em uma terra que tem feito perguntas sobre si mesma, sobre o ser humano e a vida?
Padre Eder – A França ela tem experimentado realmente uma crescente nos números. Quando se fala desses números, é justamente ali no Tríduo Pascal: então, a vigília do sábado à noite, onde os adultos são batizados, e as crianças no Domingo de Páscoa. Em 2024 foram pouco mais de 7 mil, o que já foi um número surpreendente para a realidade da França. No ano passado, quando se acreditava que teria uma certa queda, esse número passou de 20 mil! Então existe, sim, um florescimento da Igreja, fruto de movimentos, fruto de uma religiosidade que leva as pessoas ao encontro maior com a pessoa de Jesus Cristo — e não apenas no caráter social, político, mas de espiritualidade. Então, muitos movimentos de renovação carismática, mas de outras espiritualidades; a própria Canção Nova, nós temos o nosso trabalho. Então tudo isso tem agora surgido, a Igreja na França tem colhido os frutos, e principalmente os frutos com os jovens. Tem muitos jovens que vêm pedindo o batismo. Na França é um pouco diferente: lá tem, sim, famílias muito católicas que batizam as crianças, mas uma família que não tem tanto uma fé, ela deixa a criança crescer e escolher se ela quer ou não ser batizada. Então, eu trabalhava com os jovens, e tinha muitos jovens que diziam “eu vou pedir meu batismo”. Era até estranho ver um jovem na igreja que não era nem batizado, mas é uma realidade que a gente encontra lá.
Realmente é um país onde a secularização cresce; mas existem sinais de esperança em meio a tudo isso.
noticias.cancaonova.com – E como é esse trabalho de evangelização com a juventude, diante dessa realidade específica?
Padre Eder – Um dos frutos que foi tocado recentemente é a realidade onde eu estava, que é a nossa diocese no sudeste da França, na região de Toulon: o trabalho para proporcionar o encontro dos jovens com Cristo. Então, os grandes encontros: as Jornadas Mundiais da Juventude em Portugal, que foi muito boa; o Ano Jubilar; o encontro em Roma, que também trouxe muita gente; outros encontros que são realizados. A diocese da França, todos os anos, ela vai com os jovens para ficarem quatro dias em Lourdes: são em torno de 700 jovens que vão passar quatro dias, durante a semana, no Santuário de Lourdes, ali com momentos de evangelização, shows, teatros, para que eles então encontrem aquilo que, no fundo, eles estão procurando, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Vista do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, na França, em 2025 / Foto: Jean-Marc Barrère / Hans Lucas via Reuters Connect
noticias.cancaonova.com – Outro sinal que podemos mencionar é a própria viagem apostólica que Leão XIV fará nesta semana, 18 anos após a última viagem de um Papa a Paris e Lourdes. Papa Francisco esteve três vezes na França, mas nunca em uma visita oficial. Só para citar alguns pontos-chave: teremos a visita à sede da Unesco – mote sobre educação e cultura – a missa na Place de la Concorde, que é um local emblemático para os franceses, toda a espiritualidade que é própria de Lourdes, local de peregrinação mariana, e também a dimensão de unidade e diálogo com a visita a Metz que é considerada uma cidade fronteiriça. Olhando para essa agenda, para essas escolhas, o que podemos dizer sobre o significado dessa presença papal, da mensagem que o Sucessor de Pedro levará ao povo francês?
Padre Eder – A visita do Papa tem um grande caráter pastoral. Ele está indo para fazer alguns apelos específicos, como na área da educação, com discurso celebrando até mesmo os 75 anos do acordo entre UNESCO e Santa Sé em favor da educação, da arte, da cultura. A própria questão da celebração (missa na Place de la Concorde): foi escolhido esse lugar porque é, sim, simbólico, mas também é um lugar bem amplo. É no centro de Paris. Para se ter uma ideia, existe o Museu do Louvre, existe um grande jardim, Tuileries, e a Praça da Concórdia, que hoje tem um obelisco, mas antes dele era onde estava a guilhotina no tempo da Revolução Francesa, onde muita gente foi morta, inclusive o Rei e a Rainha. Depois, você entra na principal avenida de Paris, que é a Champs-Élysées. Então é um lugar amplo, um lugar muito bonito, de fácil acesso, então por isso foi escolhido, mas também simbólico por aquilo que representa.
A visita do Papa tem um grande caráter pastoral. Ele está indo para fazer alguns apelos específicos, como na área da educação.
Existe um outro momento também que falamos dos jovens: o Papa vai a uma vigília com os jovens no Stade de France, que é o principal estádio. E a parte de espiritualidade no sul, em Lourdes, que fica próximo à divisa entre a Espanha, a região dos Pirineus, um lugar onde Bento XVI esteve, onde João Paulo II esteve várias vezes. E essa visita tem um cunho muito importante pastoral, que, além de ter um encontro com os bispos da França, o Papa também vai se encontrar com algumas pessoas que foram vítimas de abuso por membros do clero.
Além disso, é um santuário de acolhida e um santuário onde aqueles que ali passam são acolhidos, abraçados por Nossa Senhora — um lugar de cura não somente física que acontece, mas também espiritual. E de lá o Papa também vai justamente para a fronteira, que é Metz, que seria equivalente ao nordeste, que fica entre Luxemburgo, Bélgica e Alemanha, que é um lugar onde existiram sempre muitos conflitos e inclusive de guerras. E nós sabemos que a Europa hoje está à beira de uma guerra com a relação com a Ucrânia e Rússia e outros países ali, então o Papa leva esse sinal da paz. Então: educação, cultura e espiritualidade, mas também como um homem que leva a paz e deseja falar de paz ao mundo.
Aqueles que a sociedade quer excluir porque têm alguma enfermidade, porque não são úteis aos olhos da sociedade, lá em Lourdes eles têm preferência.
noticias.cancaonova.com – Dessa programação, vamos aprofundar um pouco sobre Lourdes. O Papa rezará na gruta de Massabielle, onde ocorreram as centenárias e muito famosas aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette. Esse santuário é um ponto-chave para a fé dos franceses? O que o senhor pode dizer sobre essa espiritualidade local e como ela alcança outras regiões da França?
Padre Eder – Lourdes é uma referência não só pela aparição de Nossa Senhora, porque a França é privilegiada, Nossa Senhora apareceu também em outros lugares, em Paris, por exemplo, onde tem a Capela da Medalha Milagrosa, que nós chamamos de Nossa Senhora das Graças; apareceu em La Salette e tem outras aparições oficiais. Mas Lourdes… Certa vez estando lá, ouvindo um dos pregadores, ele dizia que Lourdes toca e toca todos os que vão porque é o lugar dos excluídos. Aqueles que a sociedade quer excluir porque têm alguma enfermidade, porque não são úteis aos olhos da sociedade, lá em Lourdes eles têm preferência, eles são cuidados e acolhidos. Eu conheci muitas pessoas que fizeram uma experiência de encontro com Deus através da Virgem Maria, mas olhando esse cuidado que ali se dá principalmente àqueles que são excluídos pela sociedade. A espiritualidade de Lourdes toca profundamente por isso. É um lugar simples. A água que apareceu, que é a água milagrosa, que tantos foram alcançados, curados, milagres aconteceram através da água, é uma água. Várias vezes foram feitas análises sobre ela e a conclusão é sempre a mesma: é água! E também por esse histórico de vários Papas que passaram e rezaram ali naquele santuário pedindo a intercessão de Nossa Senhora.




