Embora desconheçam diretrizes pastorais, jovens encontram na espiritualidade um fator de equilíbrio essencial contra as pressões cotidianas
Thiago Coutinho
Da redação

Peregrinos reunidos no Jubileu dos Jovens, um dos maiores eventos do Jubileu 2025 / Foto: Joyce Mesquita
O cansaço da superficialidade digital é um dos principais motivos pelos quais os jovens decidiram voltar à Igreja. Pelo menos é o que aponta a Pesquisa Nacional de Evangelização da Juventude no Brasil, realizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em parceria com a UCB, a PUC-RS e a PUC-RJ entre maio e julho de 2025.
A tendência parece se repetir em outras partes do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Barna Group realizou uma pesquisa intitulada “State of the Church” (A situação da Igreja, em tradução livre) e constatou que as gerações Millennial (nascidos entre 1981 e 1996) e Z (nascidos entre 1997 e o início de 2010) também têm aumentado a frequência às igrejas em solo americano.
A estética dos rituais históricos e a liturgia tradicional conseguem preencher esse vazio que as redes sociais e as interações virtuais deixaram nessa geração? “Na base dessa pergunta, mergulhando no profundo do ser, a estética aponta para uma fome de beleza; isso pode nos colocar ainda no superficial das coisas e da vida”, afirma o padre Antônio Gomes Filho, assessor da Comissão para a Juventude da CNBB.
“Apontar para a beleza da vida é buscar o sentido da existência. A liturgia, os ritos, na sua essência, apontam para o centro que tem morada em Deus, Uno e Trino, e dão conta das perguntas que nos movem: Quem sou? De onde venho? Para onde vou? Aqui, mais do que aparências, seguimos o Senhor. Colocamo-nos à disposição de Jesus e de seu Reino. Isso implica não fugir das realidades difíceis, mas encontrarmos força, energia e coragem para enfrentar as situações mais adversas”, acrescenta o religioso.
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Respostas profundas, recusas superficiais
Acolher um público que busca respostas mais profundas e complexas e recusa o superficial exige uma certa adaptação das instituições religiosas. A liderança e os discursos religiosos têm sido desafiados a abandonar abordagens puramente performáticas ou de mero entretenimento para dialogar com essa nova geração. Mas como levar isso adiante?
“Como sempre fez a Igreja de Cristo: procurando ler os sinais dos tempos, orientando o caminhar da Igreja na comunhão com Deus e na construção da fraternidade com toda a humanidade, procurando ser sinal do Evangelho de Jesus”, afirma o assessor da CNBB. “Para isso, é preciso formação continuada e integral, com um caminho de proximidade, acompanhamento e vivência da fé”, indica o presbítero.

Jovens encontram, na Igreja, o conforto emocional que a vida digital não oferece / Foto: Joyce Mesquita
Documento 85
O texto e as diretrizes que compõem o Documento 85 — guia da Igreja no Brasil redigido pela CNBB para orientar o trabalho pastoral, a espiritualidade e o protagonismo junto aos jovens — são pouco conhecidos pelo seu público-alvo. Pelo menos é o que afirma a Pesquisa Nacional Evangelização da Juventude no Brasil: 73,3% deles não conhecem a existência deste texto.
É uma das premissas da Igreja levar a Palavra até esses jovens. “Isso supõe um nível de inserção e engajamento que só o tempo, o estudo, a dedicação e a orientação de quem já está na caminhada podem oferecer e conquistar”, analisa o sacerdote. “A pesquisa citada, feita no ano passado, em 2025”, prossegue o presbítero, “pergunta de um documento que está caminhando para os seus 20 anos de aprovação. Supõe um caminhar eclesial iluminado por opções de formação e organização. Nem sempre quem está começando a caminhar tem ciência do que inspira o caminho, mas há a percepção de que são amados e estão no centro das opções da Igreja”.
Amigos são rede de apoio
A pesquisa mostrou ainda que os jovens reconhecem outros jovens como sua maior rede de apoio. Paralelamente, concluiu-se também que 7 em cada 10 jovens não vivem em uma família biparental tradicional. Como, então, fortalecer esse laço cada vez mais frágil com a juventude, uma vez que a família ainda é o primeiro contato com a evangelização?
“A família aparece como desafio, como centro de apoio e como primeiro vínculo”, analisa o padre Antônio Gomes. “Apoiar os jovens no caminhar eclesial é encontrá-los no serviço evangelizador. É entender seus novos contextos para evangelizar com consequência e organicidade, de forma encarnada”, aconselha.
O trabalho realizado pela Comissão da Juventude da CNBB concluiu ainda que mais de 50% dos jovens não estão emocionalmente bem. A saúde mental é o terceiro tema de maior interesse dessa faixa etária. Os sofrimentos também são distintos entre os sexos: as mulheres sentem mais a pressão estética, o adoecimento psíquico e o desemprego; já os homens sentem o peso do vício, da violência e do isolamento.
Por outro lado, 43,4% têm esperança mesmo sofrendo — e a espiritualidade é o fator de equilíbrio mais citado. Além disso, 64% dos entrevistados dizem que a vida espiritual os ajuda no cotidiano.




