Celebrada este ano no Dia dos Namorados, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus inspira reflexões sobre entrega, perdão e a presença de Deus nos relacionamentos
Julia Beck
Da Redação

Sagrado Coração de Jesus inspira casais a viver o amor com entrega, fidelidade e fé /Fotos: Canva
A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, celebração móvel do calendário litúrgico que ocorre sempre na segunda sexta-feira após Pentecostes, é celebrada neste ano em 12 de junho, mesma data em que o Brasil comemora o Dia dos Namorados. A coincidência entre as duas datas chama a atenção para uma reflexão: que luz a celebração do Sagrado Coração pode oferecer aos namorados e casais?

Padre Paulo Manoel de Souza/ Foto: Arquivo Pessoal
O mestre e doutorando em Direito Canônico e diretor do Instituto Teológico Pio XI de São Paulo, padre Paulo Profilo, SDB, destaca que a coincidência entre as duas datas é uma ocasião privilegiada para recordar que todo amor humano encontra sua origem e seu modelo no amor de Deus.
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“O Coração de Jesus revela um amor que acolhe, cuida, perdoa e permanece fiel. Não é um amor passageiro, condicionado pelas circunstâncias, mas um amor que se doa até o fim”, pontua.
Ao comentar a encíclica Dilexit Nos, o sacerdote ressalta que o Papa Francisco deixou uma profunda reflexão sobre o coração como centro da pessoa, lugar onde se unem afetos, decisões e o sentido da vida. Segundo padre Paulo, essa perspectiva ajuda a compreender que amar não significa apenas sentir algo por alguém, mas orientar toda a própria existência para o bem da pessoa amada.
“Para os namorados e casais, a festa do Sagrado Coração é um convite a passar do simples encantamento para o compromisso, da emoção para a comunhão, da paixão para um verdadeiro projeto de vida construído a dois. O amor amadurece quando aprende a refletir algo do próprio amor de Cristo”, afirma.
Amor não pode ser descartável
Padre Paulo constata que há uma cultura atual que valoriza muito o imediato. Quando algo deixa de corresponder às expectativas, muitas vezes a primeira reação é substituir ou abandonar. O Coração de Jesus, no entanto, apresenta uma lógica diferente: a da fidelidade, da paciência e da perseverança. Cristo, ressalta o presbítero, continua amando mesmo diante da fragilidade humana, sem desistir daqueles que ama.
Essa realidade também é percebida pelos missionários da Comunidade Canção Nova Mauriceia Silva e Elias Júnior, que acompanham casais e noivos. Mauriceia recorda que o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, aponta entre os principais desafios da família o individualismo e a chamada “cultura do provisório”.
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“Às vezes a pessoa se casa e continua agindo como se fosse solteira. Possui medo de doar-se e de sair do próprio egoísmo. Vemos também relacionamentos que se constroem e se desfazem com muita facilidade. O matrimônio não pode sucumbir a essa lógica”, afirma.
A Teologia do Corpo de São João Paulo II, prossegue o sacerdote, oferece uma contribuição preciosa. “O Papa ensinava que a pessoa humana se realiza plenamente quando faz de si mesma um dom sincero para o outro. O compromisso nasce justamente dessa capacidade de sair de si para acolher e servir”, comenta.
“Nenhum relacionamento se sustenta apenas por obrigações; ele floresce quando cada pessoa se torna para a outra uma presença segura, acolhedora e confiável. O Coração de Jesus nos ensina que o verdadeiro amor não é descartável. Sua beleza não está apenas na intensidade com que começa, mas na fidelidade com que atravessa o tempo.”
Crises e dificuldades
O coração transpassado de Cristo lembra que amar implica vulnerabilidade, assinala o presbítero. “Quem ama verdadeiramente se expõe, corre riscos e inevitavelmente experimenta momentos de sofrimento”, pontua.
Padre Paulo reconhece que as crises fazem parte da vida humana e também da vida dos casais. No entanto, elas podem se tornar ocasiões de crescimento quando são enfrentadas com humildade, diálogo, escuta e disposição para recomeçar.

Elias Júnior e Mauricei Silva com o filho do casal, Elias Neto /Foto: Arquivo Pessoal
Na experiência de acompanhamento de casais, Mauriceia destaca que o diálogo é essencial para superar crises e fortalecer a comunhão. Elias acrescenta que o perdão ocupa lugar central nesse processo.
“Quantas vezes presenciamos que o perdão foi a chave para uma mudança profunda na vida de um casal. Essa decisão amorosa traz recomeço e permite olhar para os acontecimentos com misericórdia”, destaca o missionário.
Amadurecimento do amor
Os sentimentos são importantes e fazem parte da experiência amorosa, mas são naturalmente variáveis. Por isso, o mestre em Direito Canônico alerta que, se o amor dependesse apenas das emoções, dificilmente resistiria ao tempo.
“A espiritualidade do Sagrado Coração nos mostra que o amor envolve toda a pessoa. Jesus não ama apenas porque sente compaixão; Ele ama porque escolhe entregar-se. Seu amor é livre, consciente e perseverante.”
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O sacerdote cita a Teologia do Corpo de São João Paulo II como auxílio para compreender essa realidade. “Amar não significa simplesmente seguir os próprios sentimentos, mas orientá-los para o bem da pessoa amada. O amor verdadeiro exige paciência, diálogo, renúncia, perdão e crescimento mútuo”, frisa.
Amor de Deus e o amor do casal
“Responder ao amor de Deus significa tornar o amor visível nas pequenas escolhas cotidianas. Não são os grandes gestos ocasionais que sustentam uma relação, mas a fidelidade às pequenas atitudes de cada dia”, pondera padre Paulo.
O sacerdote enfatiza que os casais respondem ao amor de Deus quando aprendem a escutar verdadeiramente um ao outro, quando dedicam tempo à convivência, rezam juntos e fazem do perdão uma prática concreta.
Elias reforça que a presença de Deus é indispensável para sustentar o amor ao longo da vida. Citando Fulton Sheen, ele recorda que “sempre são necessários três para amar: você, a outra pessoa e Deus”.
“No fundo, amar é aprender e perguntar menos ‘o que eu recebo?’ e mais ‘como posso ajudar o outro a crescer e florescer?’. É isso que contemplamos no Sagrado Coração de Jesus: um amor que se doa sem reservas e que convida cada pessoa a fazer da própria vida um dom para os outros”, finaliza o presbítero.




