Dom Heitor Sales acompanhou os 15 anos em que Paulo VI liderou a Igreja Católica e recorda o legado deixado pelo Pontífice que se tornou santo
Kelen Galvan
Da Redação

Dom Heitor Sales e Papa Paulo VI / Foto: Rivaldo Jr e Domínio Público (respectivamente)
O primeiro Papa a visitar a Terra Santa depois do Apóstolo Pedro. O primeiro Papa a discursar na Assembleia Geral da ONU pedindo a paz. O primeiro Papa a viajar de avião e também o primeiro a visitar os cinco continentes. Esse foi o Papa Paulo VI, celebrado nesta sexta-feira, 29, data que recorda o dia de sua ordenação sacerdotal, em 1920. Ele foi canonizado no dia 14 de outubro de 2018 pelo Papa Francisco.
Seu Pontificado, entre anos de 1963 e 1978, abrangeu a maior parte do Concílio Vaticano II e o pós-Concílio, e deixou muitas contribuições para a Igreja.
O arcebispo emérito de Natal (RN), Dom Heitor de Araújo Sales, 99 anos, foi um dos últimos bispos a serem nomeados pelo Papa Paulo VI, no ano de 1978. Ele afirma que ter sido chamado para “trabalhar como sucessor dos apóstolos” por um Papa que agora é santo, é motivo de muita alegria. “Louvado seja Deus pela vida e doação à Igreja pelo Papa Montini, hoje São Paulo VI”.
O Concílio Vaticano II
Em entrevista ao noticias.cancaonova.com, Dom Heitor destaca como maior legado do Papa Paulo VI a realização do Concílio Vaticano II. O concílio foi convocado e iniciado por João XXIII, em 1962, porém ele faleceu oito meses depois, e coube a Paulo VI dar continuidade até sua conclusão em 1965.
“O Concílio foi de uma importância enorme para a Igreja”, afirma Dom Heitor. Em especial, ele destaca um dos documentos do Pontífice – a Constituição Dogmática Lumen Gentium (Luz dos Povos), promulgada em 21 de novembro de 1964 – como uma das grandes contribuições deixadas por Montini e um dos frutos do Concílio. “É o documento que define a Igreja como ‘o sacramento, ou sinal’, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano”, ressalta.

Sessão do Concílio Vaticano II / Foto: Domínio Público
Segundo o bispo, o Papa Paulo VI foi aquele que abriu as portas da igreja para que todos pudessem ser verdadeiros cristãos. Foi ele que deu os primeiros passos em relação ao ecumenismo, um dos principais propósitos do concílio. E, através disso, trouxe uma expansão da fé para toda a igreja. Dom Heitor lembra que, com isso, os cristãos começaram a admirar a sua coragem e a sua decisão.
“Isso foi um grande bem para a igreja, porque ele mostrou que a Igreja Católica estava aberta ao diálogo, sem abrir mão de sua doutrina. Durante seu pontificado, o Papa Montini, como também era conhecido, participou de muitos encontros com chefes de Igrejas Cristãs, caracterizando a prática do ecumenismo”, destaca.
O Dia Mundial da Paz
Paulo VI escreveu muitos documentos importantes para a Igreja, entre os quais a Encíclica Humanae Vitae (que se tornou um marco na Doutrina Moral da Igreja nas questões de regulação da natalidade) e a Populorum Progressio (sobre o desenvolvimento dos povos, um documento importante para a Doutrina Social da Igreja).
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Também foi um incansável promotor da Paz, inclusive foi ele que instituiu o Dia Mundial da Paz, em 1967. Desde então, a data é marcada por uma mensagem do Sumo Pontífice. “Com a instituição desse dia, Paulo VI procurou também a união com outros pontos da igreja que estavam afastados e transformando o seu pontificado, como chefe da igreja. [Tornou-se] um grande apóstolo para todo mundo, em tempos tão difíceis como os que ele viveu”, afirma Dom Heitor.
O Papa peregrino e seu discurso na ONU

Visita de Paulo VI às Nações Unidas em 1965 / Foto: Domínio Público
O bispo lembra que Paulo VI foi um dos Papas que mais lutou pela paz no mundo, chegando a discursar em uma Assembleia das Nações Unidas (ONU), em 4 de outubro de 1965. “Naquele discurso, Paulo VI destacou que estava ali sendo a voz dos pobres, dos injustiçados, dos que aspiravam a dignidade de viver. Ele também lembrou que os povos se voltam para as Nações Unidas como para a última esperança da concórdia e da paz”.
Dom Heitor acompanhou todos os anos do Pontificado de Paulo VI, que durou 15 anos, e lembra que ele foi considerado um Papa inovador para sua época, inclusive por ter sido o primeiro a viajar de avião e aos cinco continentes.
“O Papa Paulo VI serviu-se dos meios modernos para realizar a visita pastoral a diversos países dos cinco continentes, viajando de avião. Isso lhe rendeu o apelido de o ‘Papa peregrino’. Com isso, muitos cristãos começaram a sentir que ele era verdadeiramente um pastor universal, um sucessor de Pedro na história da humanidade”, afirma o bispo.
Breve biografia
Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini nasceu no dia 26 de setembro de 1897, na cidade italiana de Concesio. Desde cedo, sua vida foi muito envolvida com religião. Entrou para o seminário com o objetivo de se tornar um sacerdote no ano de 1916.

Paulo VI em Fátima com a Irmã Lúcia / Foto: Domínio Público
Depois de ser ordenado em 1920, estudou ainda na Universidade Gregoriana, na Universidade de Roma e na Pontifícia Academia Eclesiástica. Ele tinha um talento notável para a vida religiosa, foi o que o levou rapidamente a desenvolver uma carreira na Cúria Romana. Na administração do Vaticano, ocupou cargos importantes dentro da Igreja Católica, desenvolvendo funções muito próximas e de confiança dos papas Pio XI e Pio XII. Já em 1944, Giovanni Montini trabalhava diretamente com o Papa Pio XII.
A nomeação de Giovanni Montini para o cargo de Arcebispo de Milão parecia ser um método para afastá-lo do papado. Porém acredita-se mais que tal medida foi tomada por Pio XII para permitir que Giovanni tivesse mais experiência pastoral. De qualquer forma, mesmo sem ser cardeal da Igreja, durante o conclave de 1958 que elegeria o novo Papa, Montini recebeu vários votos. O sucessor de Pio XII acabou sendo João XXIII, que, no mesmo ano, elevou Giovanni à condição de cardeal. João XXIII exerceu o cargo de Supremo Pontífice por menos de cinco anos, vindo a falecer em 3 de junho de 1963.
Dias depois foi realizado um novo conclave para eleger seu sucessor. Desta vez, Giovanni Montini foi eleito Papa, no dia 21 de junho, tornando-se o 262º Pontífice da Igreja Católica. Ele escolheu o nome de Paulo VI, indicando que tinha uma missão mundial de propagar a mensagem de Cristo. Ao longo dos 15 anos de seu Pontificado, promoveu reformas significativas na Igreja.
Faleceu no dia 6 de agosto de 1978 e foi sucedido por João Paulo I. O processo de beatificação de Paulo VI começou em 1993 e se concretizou em 2014. Ele foi canonizado dia 14 de outubro de 2018 pelo Papa Francisco, na Praça São Pedro, no Vaticano.
(Informações: Arquidiocese de São Paulo)




