Gesto de amor

Papa sobre doação de órgãos: generosidade em tempos de interesse

Leão XIV recebeu participantes da rede italiana de transplantes, recordou gesto pioneiro do beato Carlo Gnocchi e reforçou a importância ética da doação

Da Redação, com Vatican News

Papa Leão XIV sentado em uma cadeira durante audiência no Vaticano

Papa durante audiência no Vaticano /Foto: VATICAN MEDIAIPA/Sipa USA via Reuters

O Papa Leão XIV recebeu em audiência, nesta quinta-feira, 26, cerca de 400 pessoas que participaram da Assembleia Geral da Rede Nacional de Transplantes da Itália, um evento promovido pelo órgão técnico-científico do Ministério da Saúde no setor, o Centro Nacional de Transplantes (CNT). Durante dois dias, profissionais e voluntários da área, instituições e comunidade científica se reuniram para analisar o sistema de doação e transplante de órgãos, tecidos e células no país, com um olhar no futuro através dos novos modelos de doação.

O encontro com o Pontífice foi caracterizado como uma das atividades para enaltecer os princípios da solidariedade, da responsabilidade e do cuidado que inspiram o sistema de transplantes na Itália, país que está entre os primeiros da Europa em doações de órgãos: em 2025, foi batido um novo recorde com um aumento de 3,2% em relação ao ano anterior. Os transplantes seguem crescendo junto com as doações, representando os maiores números já registrados na Itália, como confirmaram os dados do Relatório Preliminar do CNT apresentando durante a assembleia.

Padre Carlo Gnocchi: primeiro doador de órgãos na Itália

Na Sala Clementina, Leão XIV compartilhou a alegria em receber o grande grupo do setor, que é sempre acompanhado pela Pontifícia Academia para a Vida, por um “serviço da vida humana nos momentos de maior fragilidade”. Oportunidade em que o Papa recordou o gesto de amor de padre Carlo Gnocchi, o primeiro doador de órgãos da Itália, em 28 de fevereiro de 1956.

“Vocês comemoram uma data importante: há 70 anos, ocorreu a primeira doação italiana, quando o Beato padre Carlo Gnocchi pediu que as suas córneas fossem retiradas após a sua morte e transplantadas a dois jovens assistidos pela sua Obra, que puderam voltar a enxergar. Aquele gesto, realizado num contexto ainda desprovido de uma normativa específica, suscitou uma ampla reflexão na sociedade italiana e contribuiu para iniciar um percurso de definição legislativa.”

O Santo Padre prosseguiu recordando que poucas semanas após aquele gesto do padre Gnocchi, o Papa Pio XII ofereceu uma primeira orientação moral sobre esses temas, reconhecendo a licitude da retirada para fins terapêuticos, no respeito à dignidade do corpo humano e aos direitos das pessoas envolvidas. “Desde o início, portanto, a reflexão da Igreja acompanhou o desenvolvimento da medicina dos transplantes, reconhecendo seu valor e indicando, ao mesmo tempo, os critérios éticos necessários”, frisou.

As pesquisas científicas, então, se intensificaram e a Rede Nacional de Transplantes da Itália ganhou reconhecimento internacional, mérito, de acordo com o Papa, de um patrimônio de competências e também de uma cultura da responsabilidade e da confiança que precisa ser preservada e sustentada.

Um ato gratuito que requer generosidade dos doadores

A doação de órgãos, continuou Leão XIV, é uma ação que une a generosidade da doação à responsabilidade moral que a acompanha. Para São João Paulo II, está entre os gestos que alimentam a cultura da vida, recordou. O Papa Francisco, por sua vez, destacou que “a doação não se esgota na sua utilidade social” e que “deve permanecer um ato gratuito, capaz de testemunhar uma cultura da ajuda, da doação, da esperança e da vida”.

O próprio Catecismo da Igreja Católica afirma que a doação de órgãos após a morte é um ato nobre e meritório e deve ser encorajada como manifestação de generosa solidariedade. Trata-se de um apelo extremamente valioso, enalteceu o Papa, em uma época em que tudo corre o risco de ser avaliado segundo a lógica do preço, da eficiência ou do interesse.

“É preciso estar sempre vigilante para evitar qualquer forma de mercantilização do corpo humano e para garantir critérios justos e transparentes para os transplantes. A medicina dos transplantes nos lembra que a relação de cuidado, confiança e responsabilidade mútua constitui uma condição imprescindível para que o transplante possa ser realizado. A própria possibilidade de salvar vidas através dos transplantes depende, de fato, da generosidade dos doadores”, disse.

Mais pesquisa científica, mais campanhas de conscientização

Leão XIV aproveitou a oportunidade para encorajar a pesquisa científica, “que continua abrindo perspectivas importantes para a medicina dos transplantes”,  além de responder à necessidade de órgãos e dos pacientes, “em um contexto em que a demanda ainda supera em muito a disponibilidade”. Um empenho, acrescentou ainda o Pontífice, que precisa ser acompanhado “por uma reflexão responsável, para que o progresso científico permaneça orientado ao bem integral da pessoa e ao respeito à sua dignidade”:

“O trabalho de vocês é exigente e muitas vezes oculto, que exige competência e rigor e, ao mesmo tempo, consciência, equilíbrio e um vivo senso de humanidade. Nele se entrelaçam responsabilidades clínicas, escolhas delicadas e relações que tocam a vida das pessoas nos momentos mais difíceis. Continuem a desempenhá-lo com fidelidade e dedicação, tendo sempre como referência o bem do paciente. Por fim, encorajo as instituições e o mundo do voluntariado a prosseguirem com o trabalho de informação e sensibilização, para que possa crescer uma cultura da doação cada vez mais consciente, livre e compartilhada, capaz de reconhecer nesse gesto um sinal de solidariedade, fraternidade e esperança.”

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