Psicóloga alerta que a pressão por alta performance gera frustração; ela explica como o autoconhecimento ajuda a recalcular rotas
Thiago Coutinho
Da redação

Autocompaixão, resiliência e autobondade são os conselhos que a psicóloga oferece para quem atingir suas metas / Foto: Christopher Lemercier por Unsplash
Após o ‘boom’ das festas de fim de ano, o Carnaval e, especialmente, com o início da Quaresma, para muitos este é o momento de recalcular rotas e, enfim, “começar” o ano. Muitas vezes, porém, o que deveria ser o símbolo de renovação acaba se tornando um gatilho de ansiedade e cansaço emocional para quem tem a sensação de que as metas ainda não saíram do papel.
“O início do ano traz muita pressão por recomeços, expectativas altas e comparações, o que faz as pessoas olharem para o que não foi feito no ano que passou, o que não alcançaram e não realizaram”, explica Marilene Kehdi, psicóloga especialista em atendimento clínico. “Esse balanço negativo, somado ao cansaço acumulado e ao medo de repetir frustrações passadas, intensifica a ansiedade em vez de dar esperança para esse novo ano que está começando”.
Em uma sociedade tantas vezes organizada em torno da alta performance, é comum as pessoas exporem suas metas audaciosas em redes sociais, o que contribui para a frustração individual. Como, então, filtrar essas expectativas externas ao traçar os próprios planos?
“A cultura da alta performance reforça a ideia de que sucesso é produzir sempre mais, com rapidez e sem falhas, e de que o valor pessoal está ligado à produtividade e a resultados visíveis”, explica a especialista. “Nas redes sociais, vemos metas ousadas, rotinas ‘perfeitas’ e conquistas editadas, mas raramente a realidade, os bastidores, os erros e o tempo real das coisas. O que não dá certo não aparece, porque foi tudo editado”, observa.
Infelizmente, no entanto, essas postagens e exibições geram uma constante sensação de comparação — o que só piora para aqueles que vivem em incertezas. “É uma régua irreal, fazendo a pessoa sentir que está sempre atrasada, fazendo pouco. A pessoa começa a desvalorizar o seu potencial e as suas qualidades. Por isso, o autoconhecimento é fundamental para que se possam definir metas baseadas na realidade e alinhadas com a sua verdadeira essência. Metas e objetivos saudáveis nascem principalmente do autoconhecimento e da identidade, e não de comparações”, aconselha Marilene.
Reconstrução
No processo de reconstrução de projetos de vida, a autocompaixão pode ser confundida com acomodação. Esse sentimento, todavia, pode ser o combustível mais sustentável para a constância a longo prazo. “A autocompaixão é a capacidade de se tratar com compreensão e cuidado. Envolve autobondade, ser mais acolhedor , falar consigo de forma menos crítica e reconhecer que falhar faz parte da experiência humana.
“Não é se isentar de responsabilidades, é reconhecer o erro”, continua a psicóloga. “A autocompaixão é confundida com acomodação porque, culturalmente, associamos mudança à autocrítica e à pressão. No entanto, a autocrítica ativa ameaça e vergonha, o que pode levar à desistência. Por outro lado, a autocompaixão regula o sistema emocional e favorece a retomada após fracassos durante o percurso”, detalha.
Ainda segundo a psicóloga, a autocompaixão sustenta a constância, pois permite continuar mesmo quando não se atinge o ideal. “Além de regular as emoções diante do erro, ela também reduz a autossabotagem e a procrastinação”, acrescenta.
O limite entre ambição e crueldade
Questionada sobre o limite entre ter ambição e ser cruel consigo mesmo, a psicóloga alerta para o entendimento entre o saudável e a cobrança irreal que ignora limites físicos e mentais.
“Ambição saudável motiva e inspira crescimento sem gerar autocrítica destrutiva. Respeita seus limites, aceita pausas e entende que o progresso leva tempo. A crueldade consigo mesmo liga o valor próprio apenas ao resultado. Quando o erro vira vergonha e quando se ignoram sinais de exaustão física e mental, você está sendo cruel consigo mesmo”, avalia.
Se o cansaço já chegou mesmo no primeiro bimestre do ano, o ideal, para Marilene, é respeitar em vez de reagir com culpa. “Procure identificar se já existe uma exaustão, mas faça isso sem autocrítica”, aconselha. “O que sustenta qualquer conquista é uma mente calma. Passos pequenos e constantes superam grandes esforços isolados. É importante também exercitar a resiliência e entender que a capacidade de se recuperar é essencial para realizar sonhos”.
O ideal é respeitar limites, pois eles previnem a autossabotagem e o desgaste emocional, conclui.




