Aos prefeitos, Papa destaca importância da disciplina interior, do bem comum, da colaboração entre Estado e Igreja e do uso responsável das novas tecnologias
Da redação, com Vatican News

Foto: Photographer/IPA via Reuters Connect
No fim da manhã desta segunda-feira, 16, o Papa Leão XIV recebeu em audiência, na Sala Clementina, no Vaticano, cerca de 150 prefeitos da República Italiana. O Pontífice iniciou seu discurso agradecendo aos presentes pela visita, que confirma o compromisso de colaborar para o bem da sociedade italiana.
Como exemplo de convergência entre a Igreja e o Estado, Leão XIV citou Santo Ambrósio, que foi prefeito de Milão, então capital do Império, e tornou-se bispo e exerceu as suas funções públicas de um modo novo, colocando a serviço da população a autoridade espiritual com que foi investido.
O Pontífice recordou que, na antiguidade tardia, havia uma semelhança entre a organização civil e a estrutura da Igreja, expressa inclusive pelos termos utilizados para designar suas lideranças. Assim como os cidadãos de Roma eram organizados em dioceses administradas por prefeitos, também as comunidades cristãs eram estruturadas em dioceses conduzidas pelos bispos, que exerciam a missão de guiar e cuidar do povo à maneira de bons pastores.
“Tal parentesco histórico ainda marca a sua missão hoje, destinada a servir o Estado, garantindo a ordem pública e a segurança de todos os cidadãos”, afirmou e prosseguiu: “Especialmente no nosso tempo, marcado por conflitos e tensões internacionais, evidencia a importância de proteger o bem comum, que é irredutível aos aspectos materiais, pois diz respeito antes de tudo ao patrimônio moral e espiritual da República italiana”, sublinhou o papa.
Proteção à liberdade e aos direitos dos cidadãos
A seguir o Pontífice destacou que o prefeito contribui para proteger o pressuposto irrenunciável da liberdade e dos direitos dos cidadãos. “Toda população se beneficia deste serviço, especialmente os grupos mais vulneráveis”.
De fato, quando o espaço civil está livre de desordens, os pobres encontram acolhimento com mais facilidade, os idosos experimentam maior tranquilidade, melhoram os serviços para as famílias, os doentes e os jovens, favorecendo um olhar mais confiante para o futuro”, completou.
Leão XIV ainda ressaltou aos prefeitos italianos que a ordem pública não se trata apenas da luta contra a criminalidade ou a prevenção de tumultos danosos, mas também exige um empenho tenaz para combater qualquer forma de violência, falsidades e vulgaridades que ferem os organismos sociais. “De forma positiva, é de sua competência vigiar e preservar os vínculos sociais e fortalecer a cooperação entre o governo central, os órgãos locais e a população”.
A este propósito, vale recordar um ensinamento de Santo Agostinho, que recebeu o batismo do próprio Santo Ambrósio. O bispo de Hipona escreveu: “Aqueles que comandam estão a serviço daqueles que parecem ser comandados. Não governam por ambição de domínio, mas por dever de cuidado; não com a arrogância de prevalecer, mas com a bondade de providenciar.” (De civitate Dei, XIX, 14).
Citando ainda um trecho do artigo 98 da Constituição Italiana que afirma que os funcionários públicos estão a serviço exclusivo da nação, o Papa reiterou que esse trecho atesta o caráter originário do nobre serviço exercido pelos prefeitos, “que certamente respondem às leis do Estado, mas antes de tudo à consciência que as conhece, as compreende e as aplica com firmeza e equidade”, afirmou Leão XIV.
Disciplina interior e novas tecnologias
Em seu discurso, o Papa também enfatizou a necessidade da disciplina interior para governar e promover a ordem do próprio pensamento, antes da República. Ou seja, servir a nação significa dedicar-se ao bem comum do povo italiano com mente lúcida e consciência íntegra.
A seguir o Papa destacou dois compromissos que quem ocupa um alto cargo deve testemunhar. O primeiro, se manifesta na colaboração entre os diversos organismos e níveis administrativos do Estado. Já o segundo, sublinhou o pontífice, se realiza conectando responsabilidade profissional e conduta de vida, “como exemplo de dedicação aos seus concidadãos, especialmente às novas gerações. A esse respeito, espero que a sua autoridade contribua para melhorar o rosto da burocracia, cooperando para tornar cada vez mais virtuoso o cuidado com a sociedade”.
Leão XIV ainda salientou que diante de situações de emergência, calamidades e perigos, o papel dos gestores e administradores públicos permite expressar os valores de solidariedade, coragem e justiça.
O Papa também fez um alerta a respeito do uso das novas tecnologias e da inteligência artificial na administração pública. Segundo o pontífice, essas ferramentas devem ser geridas com atenção, garantindo não apenas a proteção de dados pessoais, mas em benefício de toda a sociedade, sem privilégios para poucos.
“Cultivando um estilo de cidadania consciente, honesta e ativa, saibam que podem sempre contar com a colaboração e o respeito da Igreja”, afirmou. Ao concluir, Leão XIV pediu que as relações construtivas mantidas com os bispos diocesanos favoreçam, em particular a acolhida dos migrantes e as diversas formas de apoio aos necessitados.




