De origem portuguesa e bastante popular em diversas regiões do Brasil, título mariano remete à proteção e guia da Virgem Maria em meio ao mar da vida
Gabriel Fontana
Da Redação

Imagem de Nossa Senhora dos Navegantes / Foto: Cesar Lopes/PMPA
A Igreja celebra, em 2 de fevereiro, a Festa da Apresentação do Senhor. A data, porém, também está ligada a alguns títulos relacionados a Virgem Maria, e um deles é o de Nossa Senhora dos Navegantes.
Segundo o mestre em Teologia e membro da diretoria da Academia Marial de Aparecida, Vinicius Paiva, o título de Nossa Senhora dos Navegantes, surgido no contexto das Grandes Navegações no século XV, tem origem em uma outra invocação mariana ainda mais antiga: Stella Maris, que significa “Estrela do Mar”.
Paiva explica que o título de Stella Maris já existia desde antes de São Jerônimo, que viveu entre os séculos IV e V, mas foi muito difundido por São Bernardo de Claraval, no século XII. Uma vez que essa invocação faz menção a Virgem Maria enquanto aquela que guia os homens na travessia do mar, ela foi ressignificada anos mais tarde, quando o apelo a desbravar o oceano cresceu na Europa.
“Assim como as estrelas guiam os navegadores, também a figura de Maria conduz os fiéis, sendo aquela que nos faz chegar até o porto seguro que é Cristo”, expressa o mestre em Teologia. “Desta forma, um título que era muito teológico se popularizou, principalmente na Espanha e em Portugal, que invocavam a Stella Maris sob o título de Nossa Senhora dos Navegantes buscando a proteção de Maria naquela travessia que era realmente perigosa”, acrescenta.
Guia em toda a travessia da vida
Na carta encíclica Spe salvi, o Papa Bento XVI reflete sobre o título de Stella Maris e escreve que “a vida é como uma viagem no mar da história, com frequência enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota” (n. 49). São luzes de esperança, acrescenta o Pontífice, ressaltando que Jesus é o sol erguido sobre as trevas da história ao passo que Maria é, para os fiéis, estrela de esperança.
Paiva comenta que a expressão usada por Bento XVI traduz uma dimensão existencial, na qual o auxílio e a guia de Nossa Senhora não se dá por um momento apenas. “Ela não é a Stella Maris apenas no momento da dificuldade, mas em toda a travessia da vida”, ressalta.
O mestre em Teologia recorda que a primeira imagem mariana a chegar no Brasil foi a de Nossa Senhora da Esperança, que também inspira o cuidado maternal de Maria. “Eu diria que Nossa Senhora dos Navegantes inspira o povo fiel a ter essa confiança permanente, que não é algo do momento, mas algo que perpassa a história. Ela é a grande estrela e é isso que deve inspirar a nossa caminhada”, afirma.
A devoção no Brasil
A devoção a Nossa Senhora dos Navegantes chegou ao Brasil por influência dos colonizadores portugueses. Paiva destaca que esse título tornou-se muito popular em algumas partes do país, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além de regiões portuárias de outros estados como Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Norte.
O mestre em Teologia observa que essa devoção se parece com outras ligadas a Virgem Maria no sentido de entregar-se a ela e confiar a vida aos cuidados da Mãe de Deus. Dificilmente o povo mais simples vai pensar no significado teológico de Stella Maris, pontua, mas a prática da fé acaba tornando concreto esse conceito e traduz a confiança filial a Nossa Senhora.
Em relação à data escolhida para celebrar esse título mariano, Paiva explica que a Festa da Apresentação do Senhor marca o dia em que Cristo, que é a luz do mundo, tornou-se visível. Por esse motivo, outras invocações a Virgem Maria ligadas à luminosidade, como Nossa Senhora das Candeias e Nossa Senhora da Luz, também são comemoradas em 2 de fevereiro.
“A Stella Maris é uma luz que ilumina o navegante, é uma luz que ilumina o caminho pelo mar, e por isso a festa é celebrada em 2 de fevereiro – ela está ligada a essa questão da luz do mundo que é Cristo”, complementa o mestre em Teologia.
Expressões da devoção em Porto Alegre

Padre Carlos José Feeburg / Foto: Arquivo pessoal
O reitor do Santuário Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre (RS), padre Carlos José Feeburg, conta que a devoção na capital gaúcha tem mais de 150 anos. Na época, alguns artigos sobre os títulos marianos ligados aos mares inspiraram alguns lusitanos radicados na cidade a fundar uma devoção a Nossa Senhora Padroeira dos Marujos, para servir de estrela e guia a seus barcos, pilotos e demais tripulantes.
Percebendo que não havia em Porto Alegre uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, alguns fiéis tomaram a iniciativa de encomendar uma com um escultor português que vivia na cidade do Porto, em Portugal. Por coincidência, três porto-alegrenses haviam pedido aos estaleiros de Setúbal que confeccionassem três iates para serem usados em viagens comerciais.
As embarcações deixaram Portugal em novembro de 1870, chegando ao Brasil dois meses depois com a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes. Passadas várias décadas, a devoção segue forte entre a população porto-alegrense, fazendo parte da cultura da capital gaúcha. Segundo padre Carlos, entre 100 mil e 150 mil pessoas participam da procissão da Igreja do Rosário, no centro da cidade, ao Santuário, tradicionalmente realizada em 2 de fevereiro.
O sacerdote recorda ainda que a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes se fez muito presente quando fortes chuvas atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, causando enchentes e provocando a destruição de diversos municípios no estado. Para ele, a confiança de que é possível vencer os mares da vida e suas tempestades sustentou os fiéis, que atribuíram à proteção da Virgem Maria que nada pior tenha se passado a eles e suas famílias.
Devoção deu nome a município em SC
Em Santa Catarina, um município recebe o mesmo nome da devoção. Em Navegantes (SC), também há grande veneração a Virgem Maria sob este título, cuja origem remete ao ano de 1896.
Terra de pescadores, a cidade começou a construir uma nova capela no local que, à época, correspondia ao município de Itajaí. Logo que a obra foi concluída, um fiel português doou uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes em homenagem à fé das pessoas que viviam ali.
A população organizou uma festa para receber a imagem, dando origem à tradição que se perpetua até os dias atuais e que influenciou até na escolha do nome do município, emancipado em 1962. O pároco e reitor do Santuário Nossa Senhora dos Navegantes, padre Eduardo Bastos, frisa que o santuário e o memorial que foram construídos fortalecem a identidade religiosa e mantêm viva a fé e a devoção que são transmitidas de geração em geração.
“As celebrações, novenas e romarias realizadas pelo santuário fortalecem a espiritualidade do povo e o memorial preserva os sinais da fé. Ambos inspiram a busca pela santidade, pois apresentam exemplos concretos de fé vivida, de confiança e entrega”, conclui o sacerdote.



