Doutor da Igreja

Fé e razão: veja importância de São Tomás de Aquino na Doutrina Católica

Um dos maiores pensadores católicos, São Tomás de Aquino foi apaixonado pela verdade e empenhou-se em mostrar a harmonia existente entre a fé e a razão

Kelen Galvan
Da redação

imagem de São Tomás de Aquino segurando um ostensório. E ao seu lado uma pomba próximo ao seu ouvido direito

São Tomás de Aquino, Escola Portuguesa do século XVIII / Foto: Domínio Público

São Tomás de Aquino, um dos maiores pensadores católicos, é celebrado liturgicamente nesta quarta-feira, 28. Padroeiro dos estudantes, professores, escolas e universidades católicas, o santo deixou uma vasta obra e uma grandiosa contribuição para a doutrina da Igreja Católica. Ele foi proclamado Doutor da Igreja em 1567, pelo Papa Pio V.

Na Encíclica Fides et Ratio, o Papa João Paulo II destacou que São Tomás “foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer teologia”. 

O professor de Filosofia e Teologia da Faculdade Canção Nova, Marcius Tadeu Maciel Nahur, dedica-se a estudar São Tomás de Aquino há mais de uma década. Ele recorda que o santo foi o principal pensador da filosofia escolástica, um método de pensamento medieval que unia a fé cristã à razão filosófica, especialmente, a de Aristóteles. 

“Como diz G.K. Chesterton, na obra ‘Santo Tomás de Aquino’ (1933), ele ‘não reconciliou Cristo com Aristóteles; reconciliou Aristóteles com Cristo’. Sem dúvida, uma articulação inovadora para sua época. E a novidade importante trazida por ele pode ser identificada em seu comentário ao texto aristotélico ‘De Caelo’, no qual ensina que o estudo da filosofia não visa conhecer o que os homens compreenderam, mas de que modo se encontra a verdade das coisas. A verdade das coisas é o que realmente importa. Até porque essa questão é absolutamente fundamental, em qualquer tempo e espaço”, destaca professor Marcius.

Fé e razão

homem com boina em frente ao logo da Canção Nova

Prof. Marcius Nahur / Foto: Arquivo Pessoal

João Paulo II, na Fides et Ratio, disse ainda que São Tomás teve o grande mérito de colocar em primeiro lugar a harmonia que existe entre a razão e a fé. “A luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus: argumentava ele; por isso não se podem contradizer entre si”.

Essa relação entre a razão e a fé é um dos principais aspectos do Sistema Tomista (síntese filosófica e  teológica desenvolvida por São Tomás), destaca o professor Marcius Nahur.

“A fé, a revelação, a graça não anulam nem eliminam a razão. Elas aperfeiçoam a razão. Por sua vez, a razão pode servir a fé de três modos diferentes. Primeiro, demonstrando os preâmbulos da fé, ou seja, aquelas verdades cuja demonstração é necessária à própria fé. Não se pode crer naquilo que Deus revelou, se não se sabe que Deus existe. A razão natural demonstra que Deus existe e tem características e atributos que podem ser inferidos da consideração das coisas por Ele criadas.

Segundo, a razão natural pode ser utilizada para aclarar as verdades da fé mediante comparações. E, terceiro, a razão natural ainda pode rebater as objeções contra a fé, demonstrando que são falsas ou, pelo menos, que não dispõem de força demonstrativa. Assim, na doutrina católica, razão e fé precisam estar articuladas entre si, em diálogo constante, coerente e consistente, de tal modo que sejam evitados os riscos tanto dos racionalismos puros, quanto dos fideísmos fundamentalistas”.

Suma Teológica

A principal obra de São Tomás é a Suma Teológica (Summa Theologiae), escrita entre 1265 e 1273. A obra organiza os ensinamentos da fé católica através da filosofia escolástica e utiliza o método de perguntas e respostas. Aborda temas como as cinco vias para provar a existência de Deus, a criação, os anjos, a alma, a ética, o direito natural, entre outros.

Professor Marcius explica que a Suma Teológica está dividida em três partes principais: prima pars; secunda pars (subdividade em duas) e a tertia pars. Ele explica que cada uma dessas partes é dividida em questões, caracterizadas pela complexidade, e para alcançar uma solução adequada são elaborados artigos, através dos quais são feitas as abordagens plausíveis da questão em discussão.

“Dentro dessa estrutura muito bem articulada que Tomás de Aquino, então, trata de Deus em si mesmo e como origem de todas as criaturas; de Deus como a realização completa e acabada de tudo, isto é, de Deus como a felicidade que todos buscam; e, de Deus como caminho para essa felicidade, ou seja, Deus encarnado em Jesus, os seus sacramentos, que prolongam no tempo e no espaço a encarnação, bem como a vida imortal a que se chega por meio Dele na ressurreição”, destaca Marcius Nahur.

O professor cita que, na obra “Um mestre no ofício: Tomás de Aquino”, Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento aponta que a Suma teológica pode ser chamada de “A origem e o retorno a Deus”. E também Jean-Pierre Torrel, OP, no livro “Iniciação a Santo Tomás de Aquino – sua pessoa e sua obra”, afirma que a “Suma teológica é, ainda hoje, a obra mais utilizada e indubitavelmente a mais conhecida, mesmo daqueles que só a abrem de maneira ocasional”.

Reconhecimento

Segundo professor Marcius, os ensinamentos de São Tomás de Aquino continuam atuais e relevantes, mesmo no âmbito secular. Ele destaca como exemplo que, em 2024, em Wuhan, na China, reuniram-se dezenas de especialistas para discussão sobre Tomás de Aquino, destacando sua importância no pensamento ocidental. “Foram tratados temas como antropologia, ética das virtudes, metafísica, entre outros, mostrando a relevância contemporânea dessas abordagens tomistas para indivíduos e sociedades nesse atual mundo globalizado”, cita.

Para ele, o reconhecimento de São Tomás pode ser vislumbrado por aquilo que Umberto Eco escreveu em um texto intitulado “Elogio a Santo Tomás de Aquino”. “O elogio se justifica porque, nas palavras do referido intelectual italiano, Tomás de Aquino, já em sua época, era capaz de alinhar as opiniões divergentes, esclarecer o sentido de cada uma, questionar tudo, enumerar as objeções possíveis e tentar a mediação final. Tudo em público, como pública era justamente a questão disputada em seu tempo. Academias, casas de saber e outros espaços intelectuais comprometidos com discussões abertas sobre todas as coisas passíveis de profunda reflexão não ignoram, de forma alguma, aquele modo de pensar e dizer que tanto caracterizou os ensinamentos de Tomás de Aquino”, afirmou Marcius.

Sobre São Tomás

Nascido em 1225, perto de Nápoles, Itália, São Tomás de Aquino iniciou seus estudos com os beneditinos. Em 1244, ingressou na Ordem dos Dominicanos. No ano seguinte, viajou a Paris, onde se tornou discípulo de Santo Alberto Magno, um grande sábio medieval. Em Paris, ele se formou em teologia e lecionou durante alguns anos.

Após retornar à Itália, foi nomeado professor na Cúria Pontifical de Roma. Em 1274, o Papa Gregório X convocou-o para participar do Concílio de Lyon. Durante a viagem ele adoeceu, vindo a falecer no mosteiro cisterciense de Fossanova, aos 49 anos de idade. Foi canonizado em 1323 pelo Papa João XXII.

Santo Tomás de Aquino amou a verdade. Segundo São João Paulo II, “nele, o Magistério da Igreja viu e apreciou a paixão pela verdade; o seu pensamento, precisamente porque se mantém sempre no horizonte da verdade universal, objetiva e transcendente, atingiu ‘alturas que a inteligência humana jamais poderia ter pensado’. É, pois, com razão que S. Tomás pode ser definido ‘apóstolo da verdade’. Porque se consagrou sem reservas à verdade, no seu realismo soube reconhecer a sua objetividade. A sua filosofia é verdadeiramente uma filosofia do ser, e não do simples aparecer” (cf. Fides et Ratio n.44).

Mesmo marcada por intensos estudos, a vida de São Tomás foi uma busca constante por união íntima com Jesus. Viveu um amor profundo e místico a Jesus Cristo, centralizado na Eucaristia e na Paixão. Foi autor de hinos como “Pange Lingua”, “Adoro te devote” e Tantum Ergo (Tão Sublime Sacramento).

Em 2010, o Papa Bento XVI dedicou uma Audiência Geral a este santo doutor da Igreja e afirmou: “a vida e o ensinamento de São Tomás de Aquino poder-se-iam resumir num episódio transmitido pelos antigos biógrafos. Enquanto o Santo, como fazia habitualmente, estava em oração diante do Crucifixo, de manhã cedo na Capela de São Nicolau em Nápoles, Domingos de Caserta, o sacristão da igreja, ouviu um diálogo. Tomás perguntava, preocupado, se aquilo que tinha escrito sobre os mistérios da fé cristã era correto. E o Crucificado respondeu-lhe: “Tu falaste bem de mim, Tomás. Qual será a tua recompensa?”. E a resposta que Tomás deu é aquela que também nós, amigos e discípulos de Jesus, sempre gostaríamos de lhe dizer: “Nada mais do que Tu, Senhor!”.

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