Solenidade celebrada nesta quinta-feira, 1º, está ligada ao título Theotokos, concedido a Nossa Senhora no âmbito do Concílio de Éfeso, em 431
Gabriel Fontana
Da Redação

Mosaico da Virgem Maria com o Menino Jesus presente na abside da antiga Basílica de Santa Sofia, em Istambul / Foto: Wikimedia Commons
O ano civil começa com uma grande comemoração da Igreja, celebrada logo no dia 1º de janeiro. Trata-se da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, cujo cerne está diretamente ligado ao mais antigo dos quatro dogmas marianos proclamados pela Igreja.
Durante o Concílio de Éfeso, realizado no ano 431, fixou-se que Nossa Senhora é mãe de Deus, uma vez que gerou e deu a luz a Jesus, que é Deus verdadeiro e homem verdadeiro. A partir disso, a Virgem Maria recebeu o título Theotokos, cuja origem é grega e significa “aquela que deu à luz Deus”.
Segundo o professor de História da Igreja, Felipe Aquino, esta devoção é ainda mais antiga. Ele cita que, antes da definição do dogma da maternidade divina de Maria, uma oração do início do século II encontrada em Alexandria, no Egito, já a mencionava como “Mãe de Deus”:
À Vossa Proteção recorremos, Santa Mãe de Deus.
Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades,
mas livrai-nos sempre de todos os perigos,
ó Virgem gloriosa e bendita.
Combate a heresias

Professor Felipe Aquino / Foto: Arquivo Pessoal
O professor Felipe Aquino recorda que, ainda no século IV, o herege Ário já negava a divindade de Jesus. Sua falsa doutrina levou à convocação do Concílio de Niceia no ano 325, que reprovou esta heresia e lançou a base teológica da profissão de fé cristã. Posteriormente, o Concílio de Constantinopla I, realizado no ano 381, confirmou o Credo Niceno-Constantinopolitano.
Apesar disso, surgiu uma nova heresia. Nestório, que foi Patriarca de Constantinopla entre 428 e 431, acreditava que havia duas pessoas em Jesus, uma humana e outra divina. Desta forma, ele era contrário à atribuição do título Theotokos a Virgem Maria, indicando que ela seria mãe apenas da pessoa humana de Jesus e que o título Christotokos seria mais adequado.
São Cirilo de Alexandria, posteriormente proclamado Doutor da Igreja, foi um dos maiores expoentes do Concílio de Éfeso. Ele defendeu que as naturezas de Jesus, humana e divina, estão unidas em verdadeira unidade. “Delas resultam apenas um só Cristo e um só Filho”, reiterou.
“Dir-se-á: a Virgem é a mãe da divindade? Ao que responderemos: o Verbo vivo subsiste, é gerado pela própria substância de Deus Pai, existe desde toda a eternidade… Mas ele se encarnou no tempo e por isso pode-se dizer que nasceu da mulher”, argumentou ainda São Cirilo de Alexandria.
Mãe do Verbo encarnado
O professor Felipe Aquino indica que, com a confirmação da Igreja, a fé e a devoção do povo na Virgem Maria cresceu ainda mais. “Sem dúvida esta certeza firmada dogmaticamente pela Igreja foi inspiração para que, mais tarde, com São Domingos de Gusmão, surgisse a colocação que encontramos na segunda parte da oração da Ave Maria: ‘Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte’”, acrescentou.
Tal inspiração é baseada na saudação de Santa Isabel a Virgem Maria narrada no Evangelho de São Lucas. Segundo Felipe Aquino, a prima de Nossa Senhora foi a primeira a reconhecê-la como “a mãe do meu Senhor” (Lc 1,43).
O professor sublinha, contudo, que a Igreja sempre deixou claro que a Virgem Maria é “mãe do Verbo encarnado”, mas não foi ela quem gerou o Verbo de Deus no seio do Pai. “Maria é Mãe humana de Deus. Assim, ela também precisou ser salva por Jesus. Se Maria também foi salva pela morte de Jesus, ela não tem poderes divinos por natureza, mas por graça de Deus”, conclui Felipe Aquino.




