Um padre em Caruaru (PE) e um projeto em Cachoeira Paulista (SP) ajudam na adoção responsável de animais de rua, estimulando o acolhimento
Thiago Coutinho
Da redação

De acordo com a pesquisa Índice de Abandono Animal, 25% dos animais no Brasil estão abandonados / Foto: Priscilla Du Preez por Unsplash
“Deus quer que ajudemos aos animais, se necessitam de ajuda”, é uma frase atribuída a São Francisco de Assis, considerado pela Igreja patrono dos animais e da natureza. Uma pesquisa da Mars Petcare, porém, mostra que a máxima de São Francisco de Assis ainda não foi completamente entendida pela sociedade: no mundo todo, 35% dos gatos e cães vivem nas ruas ou estão em abrigos, à espera de adoção. No Brasil especificamente, 25% dos animais estão abandonados, de acordo com a pesquisa intitulada Índice de Abandono Animal, divulgada no ano passado.
Esta pesquisa apresenta vários pontos dos efeitos que o abandono de animais pode causar à sociedade, sobretudo do ponto de vista econômico: o abandono gera impacto econômico na administração pública, pois exige demanda de abrigos, campanhas para castração e controles de zoonose.

Mara Magalhães e Silvia Borges, responsáveis pelo Projeto Caramelo / Foto: Arquivo Pessoal
Em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, o Projeto Caramelo cuida desses animais para que sejam adotados de maneira responsável. Idealizado por Mara Magalhães e Silvia Borges, o projeto arrecada fundos por meio de eventos e festas que organizam. “Começamos unir ideias, compramos um cachorrão de pelúcia, que é o mascote do projeto, e uma máquina de algodão doce. Assim fazemos eventos em festas, e tudo que é arrecadado vai para o Projeto Caramelo”, explica Mara.
Outro exemplo vem de Caruaru, em Pernambuco. Lá, o padre João Paulo Araújo Gomes incentiva a adoção de animais por meio de diversas campanhas junto aos fiéis. “Tudo começou quando algumas senhoras vendiam biscoitos para ajudar um abrigo [de animais]”, recorda o sacerdote. “Para ajudá-las, comecei a anunciar [a venda de biscoitos] nas missas. A campanha foi bem feita e depois fui conhecer o abrigo, que tinha 97 animais. Começamos, então, a ajudar nas campanhas de adoção. A partir daí conheci a causa animal e comecei a dar uma pequena colaboração em alguns resgates, tratamentos e campanhas. Depois, adotei 6 cachorros. Hoje estou em outra cidade e igreja. Atualmente procuro ajudar pessoas e instituições que já resgatam, então publico nas mídias sociais, faço campanhas de ração e de cirurgia de casos mais graves.”, detalha.
Castração
Os animais socorridos pelo Projeto Caramelo recebem todo o tratamento adequado para serem adotados por pessoas que realmente queiram cuidar deles. “Socorremos animais que estão no cio [período fértil do animal], que levamos para a clínica e lá eles ficam até a castração”, detalha Mara. “Ajudamos as pessoas com medicação e ração. Hoje focamos mais em castração. Todos animais que doamos são castrados ou com castração garantida. Também são vermifugados e tomam remédios para prevenir pulgas e carrapatos”, reitera.
A castração evita a reprodução desordenada e previne doenças como o câncer de mama e de próstata nos animais. De acordo com o Hospital Popular de Medicina Veterinária, uma cadela que é castrada antes do primeiro período fértil tem chances de diminuir o desenvolvimento do tumor de mama em mais de 90%. Essa redução também é perceptível em gatos.
Além disso, a medida oferece controle populacional dos animais: uma cadela consegue gerar até 10 filhotes ou mais — número que pode aumentar nos felinos. É esse descontrole desproporcional uma das causas que leva ao abandono de animais.
Por que tanto abandono?
Segundo a coordenadora do Projeto Caramelo, o abandono se dá principalmente pela irresponsabilidade de quem adota. “Hoje, como vivo a causa animal, posso dizer que é a irresponsabilidade do tutor [a causa do abandono dos animais]”, assegura Mara. “O tutor quando adota um animal deveria saber que ele sente fome, frio, medo e dor. E muitas pessoas não sabem lidar com isso”, lamenta.

Juliana Senne resolveu adotar um cão após passar por uma crise de ansiedade / Foto: Arquivo Pessoal
Este, porém, não é o caso de Juliana Senne. Durante um período de sua vida, ela enfrentou crises de pânico e ansiedade com as quais teve dificuldade de lidar. No trabalho, descobriu um cachorro – Amarelo – que vivia por lá e passou a almoçar e trazê-lo para perto, já que a presença do cãozinho a acalmava. Mas, um incidente tirou o sossego de Juliana e o cachorro que até então não tinha adotado.
Depois de um tempo, próximo à pandemia, Amarelo foi encontrado com a pata ensanguentada e levado para uma UPA de Lorena [cidade do interior de SP]. Avisada por conhecidos que a viam com o cachorro, Juliana foi buscá-lo para cuidar do animalzinho. “Ele morou por um ano na nossa casa em Queluz [no interior de SP] e, depois, nós o pegamos pra ficar em casa. Hoje é nosso xodó aqui em casa, nosso senhorzinho, gordinho e ranzinza”, diverte-se a tutora.
“Os animais ajudam a estimular que os seres humanos coloquem para fora o melhor de si mesmos”, pondera o padre João Paulo. “Qualquer pessoa que adota por amor sabe muito bem que o maior beneficiário é quem adota. A adoção é o coroamento perfeito do trabalho de socorro e resgate de animais”, ressalta o presbítero.
À luz do pensamento fransciscanos
O Catecismo da Igreja ensina que os animais são, também, criaturas de Deus: “Os animais são as criaturas de Deus, que os envolve com a sua solicitude providencial. Pela sua simples existência, eles o bendizem e lhe dão glória. Também a eles os homens devem carinho. Lembremos com que delicadeza os santos como São Francisco de Assis ou São Filipe Neri tratavam os animais”.(CIC, 2416)
Para o padre de Caruaru, a adoção de animais é um ato sublime de amor — mas não pode ser feito de qualquer maneira. “Qualquer animal e ainda mais aqueles resgatados precisam de cuidados especiais. Depois de uma séria reflexão, então se pode proceder ao processo de adoção. Também é bom lembrar que embora a adoção seja o ideal, muitas pessoas podem ajudar apoiando, defendendo e colaborando com pessoas ou instituições que servem à causa: doando ração, dedicando tempo para limpeza de espaços que acolhem animais abandonados, ajudando no passeio dos animais recolhidos”, ensina o religioso.