Especialista em Política e Relações Internacionais comenta o cenário que aguarda o Papa Leão XIV, nesta que é sua primeira viagem fora da Itália
Thiago Coutinho
Da redação

Vista aérea de Beirute, capital do Líbano, primeiro destino internacional do Papa Leão XIV / Foto: Anna Danielyan por Unsplash
O Líbano aguarda a chegada do Papa Leão XIV neste domingo, 30, em sua primeira viagem apostólica internacional que começou no último dia 27 de novembro pela Turquia. Uma região de muita inquietude política e econômica, mas que já foi conhecida como a “Suíça do Oriente Médio”. O que teria levado o Líbano a perder este título e viver a atual conjuntura que o acomete?
“Quando se fala em ‘Suíça do Oriente Médio’ isso se deu mais em função da qualidade de vida, em função do próprio sistema bancário, que era confiável”, explica Fábio Cervezão, geógrafo e especialista em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política (FespSp).
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O país enfrenta uma longa crise política e econômica que se arrasta desde 2019, a moeda perdeu 98% do seu valor e a inflação segue galopante. “Uma das principais causas que contribuiu para que o Líbano ficasse mergulhado em conflitos internos foi a forma como o país desenvolveu sua política”, diz Cervezão. “O Líbano tem algo interessante, que na verdade é uma democracia. Algo raro, inclusive, no Oriente Médio. Você tem ali monarquias absolutistas, como a Arábia Saudita, por exemplo. Países que foram ocupados por ditaduras, a Síria, o Iraque. O Líbano, não”.

Fábio Cervezão, geógrafo e especialista em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política (FespSp) / Foto: Arquivo Pessoal
Existem diversos grupos políticos no Líbano que participam da liderança do país — e isso torna complexa a gestão do país. “O primeiro-ministro obrigatoriamente tem que ser muçulmano sunita. O presidente, um cristão. E o chefe do parlamento, o líder do parlamento, um muçulmano xiita. Então, eles dividem o poder dessa maneira, de forma democrática, e possibilitando, na verdade, com que esses grupos tenham voz”, detalha o especialista.
Na teoria, parece um sistema muito bom, mas que não se traduz na realidade. “O problema é que as populações que se sentem representadas por cada uma delas, se viram numa situação já delicada, achando que a representação deveria ser maior, e principalmente questionando essa situação, no sentido de que reivindicavam mais participação”.
Após a Guerra dos Seis Dias — um curto conflito que durou de 5 a 10 de junho de 1967 em que Israel venceu uma coalizão de países árabes formados por Egito, Jordânia, Síria e Iraque — muitos muçulmanos sunitas passaram a reivindicar voz no cenário político libanês que resultou numa guerra civil. “Muçulmanos e pessoas que apoiavam a causa palestina entraram em conflito com outros grupos que eram financiados pelos Estados Unidos, ou, na verdade, por atores externos. Então, basicamente, o Líbano ficou muito suscetível a influências externas. E isso acabou contribuindo para fazer com que a guerra se estendesse por vários anos. Por mais de uma década, inclusive”, afirma Cervezão.

Vista aérea do Porto de Beirute, danificado pela explosão; registro de 4 de novembro de 2025 / Foto: Emilie Madi – Reuters
Colapso econômico e explosão no porto
Com o início da guerra no Líbano em 1975, o sistema econômico entrou em colapso: e inflação se descontrolou, preços foram às alturas, o desemprego cresceu e o caos se instalou. “Isso contribuiu bastante para fazer com que o país se complicasse nesse cenário econômico em si. E isso ajudou mais ainda a ficar suscetível a influências externas. Então essa denominação de ‘Suíça do Oriente Médio’ acabou caindo por terra e se esvaindo”, explica o especialista em Política e Relações Internacionais.
Outro fator que foi determinante para a deterioração quase completa do sistema econômico do país foi a corrupção. Líderes políticos se beneficiaram de interesses entre o setor público e o privado.
Já na segunda década de 2000, mais precisamente em 5 agosto de 2020, uma explosão catastrófica de 2.750 toneladas de nitrato de amônio devastou vastas áreas da capital do país, Beirute. O incidente expôs a negligência e o descaso do Estado com o setor portuário.
“Apesar de todos os problemas, o Líbano é um país que é muito favorecido pelo fato de ter uma costa litorânea envolvendo o Mar Mediterrâneo”, detalha Cervezão. Esse pequeno detalhe da geografia libanesa aliviou a frágil economia do país. “Deu um certo respiro com relação ao turismo, deslocamento de produtos, exportação de azeite e outros produtos típicos”.
A relação com Israel
A relação com Israel e o Líbano é de uma hostilidade longeva — segundo consta, tecnicamente estão em estado de guerra desde 1948. “Quando acaba a Guerra dos Seis Dias, Israel avança em direção ao sul do Líbano, então gera um problema de fronteira, hostilidades fortes. E quem ganha força é um grupo político que promove ações terroristas chamado Hezbollah. Esse Hezbollah é de ideologia xiita. E tem financiamento por parte do Irã”.
Esse “agente externo”, o Irã, tenta se manter no poder a qualquer custo e faz com que o país e a região mergulhe ainda mais em problemas. “Então é uma situação bastante complicada. A coisa se arrasta realmente. O que o Estado de Israel alega? Dizem que a briga com o Líbano não é contra o povo libanês, mas sim contra o grupo terrorista que está lá, que é o Hezbollah”, diz Cervezão.
A visita do Papa
A visita de um Papa a quaisquer países é sempre muito celebrada e traz atenção da mídia e da sociedade. Ainda que a situação não mude drasticamente, suas viagens apostólicas sempre levam alguma luz aos problemas enfrentados por estes países em guerra. “A presença do Papa é sempre importante dentro desses contextos, pelo fato do que a Igreja Católica representa”, salienta Cervezão.
Certamente, mudanças não devem acontecer em um curto espaço de tempo. Porém, os olhos da comunidade internacional estarão voltado à região nos dias em que o Pontífice estiver lá. “Acredito que, claro, a visita do Papa sempre chama atenção, sempre é importante. É um Papa que a gente está conhecendo ainda. Essa visita é bem relevante por se tratar de um país que passa por situações bastante delicadas nas últimas décadas”, finaliza.
Leão XIV conclui sua viagem ao Líbano no dia 2 de dezembro.




