Pais, educadores e crianças

Terceirização da educação: quais as consequências para os filhos?

As novas configurações de família presentes na sociedade moderna trazem impactos diretos quando o assunto é educação dos filhos. Não só o pai, mas agora também a mãe precisa sair para trabalhar e aí surge a questão: o que fazer com as crianças?

A psicóloga Elvira Aparecida Simões de Araújo, que leciona a disciplina Psicologia da Aprendizagem no curso de Psicologia da Universidade de Taubaté (Unitau), explica que, nessa nova realidade, é necessário pensar a educação de maneira mais ampla. Nesse sentido, consideram-se como agentes da educação todos aqueles que acompanham o ambiente em que a criança vive, não só pai, mãe e irmãos, mas também o núcleo familiar próximo, composto por avós, tios e grupos de convivência.

“Para além desse grupo, a gente também tem que pensar a escola, onde se dá a educação formal, e todos os elementos que circundam a vida da criança, por exemplo, os meios de comunicação, a convivência com a comunidade, se a família participa ou não de grupos religiosos e se a criança participa ou não”, comentou.

A psicóloga acredita que essa nova realidade das famílias, em que pai e mãe não podem se dedicar inteiramente à criação dos filhos, deve ser ponderada. A sociedade mudou, então, segundo ela, a educação também vai ter que se modificar para buscar uma adequação.

“Acho que todos os grupos terão que se adaptar aos novos modelos de relação social, nos quais pai e mãe estão menos presentes. Mas isso não indica que, obrigatoriamente, terá que ter menor qualidade”, disse. Elvira destacou que, modificando seu papel, a escola vai, de certa forma, substituir a família, não do ponto de vista afetivo, mas de uma aprendizagem de relações sociais e para a comunidade.

Terceirização da educação

A esse novo retrato de criação dos filhos, o assessor da Comissão Episcopal para Vida e Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Wladimir Porreca, confere o nome de ‘terceirização da educação’. O sacerdote explica que isso acontece por necessidade, comodismo ou porque os pais não se sentem aptos a criarem seus filhos.

Nessa situação, as crianças começam a ser educadas por terceiros, como avós e professores.  Para o padre, isso provoca um distanciamento entre pais e filhos e faz com que as crianças passem a procurar seus valores e modelos onde eles são oferecidos, o que constitui uma grande preocupação.  

 “A terceirização da educação pode fazer os filhos crescerem dentro de valores que, às vezes, não são os valores dos pais, muitas vezes dentro de um ambiente, de uma situação que não condiz com sua família real”, destacou o padre.

Como a escola tem desempenhado também esse papel de transmitir valores, a psicóloga Elvira lembrou que a formação dos professores já contempla essa nova atuação, mas é necessário que a sociedade esteja atenta ao modo como essa formação vem acontecendo.

“Ver se as universidades e faculdades estão conseguindo repassar essa mensagem para os professores formados nessa direção ou se estão deixando também os professores construírem de modo ingênuo sua atuação educacional. Eu acho que é aí que a gente corre risco”, explicou.

 

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O trabalho não pode dominar a família, ele é um instrumento da família, mas não é o fundamental, diz pe. Wladimir

Trabalho x filhos

Padre Wladimir ressaltou, porém, que em algumas situações há pais que sabem lidar muito bem com isso, fazendo com que tenham qualidade os poucos momentos de presença, participando ativamente da vida dos filhos.

Esse é o caso da auxiliar administrativa Juliana Aparecida de Souza Martins Ângelo, casada e mãe de dois filhos. Como trabalha fora, ela disse que a necessidade de ter uma assistência mais profissional e especializada para seus filhos a levou a procurar uma escola para os dois.

“Apesar de não ser uma assistência exclusiva (na escola), porque são várias crianças por funcionário, você tem uma confiança maior do que deixá-las em casa sozinhas. É claro que se eu tivesse a opção de encontrar uma pessoa qualificada para ficar em casa seria melhor, mas como aqui nessa região do Vale isso é muito difícil, a escola é melhor”, ressaltou.

Ela contou que procurou várias escolas, visitando o local pessoalmente, e observou o espaço físico, mas isso não foi o fundamental. “Pra mim, mais importante do que equipamento ou coisas da moda era que as crianças estivessem bem cuidadas e felizes”.

Juliana afirma que a maior dificuldade em deixar Isadora, de quatro anos, e Ítalo, de um ano, na escola é a saudade, mas também menciona um sentimento de culpa por ter que trabalhar e não poder ficar os filhos. Ela ressaltou, porém, que estar distante não é estar ausente, pois tenta compensar o tempo perdido quando chega do trabalho.

“A criança, bem ou mal, percebe quando o pai e a mãe estão dando atenção a ela, mesmo estando longe. A gente pergunta se eles estão na escola, se a tia os tratou bem, se comeram ou não, se tomaram banho ou não. Existe uma diferença grande entre você largar na escola e você precisar deixar na escola; eu acho que as crianças, mesmo pequenas, percebem essa diferença”, finalizou.

Alerta: trabalho não é o fundamental

Padre Wladimir destacou que a tarefa de tornar de qualidade o tempo que os pais têm com os filhos implica um esforço muito grande por parte dos genitores, principalmente tendo em vista as características da sociedade atual.

“Isso é um esforço e uma luta muito grande também, ainda mais nesse mundo capitalista hoje em que o consumo e o dinheiro começam a prevalecer a ponto de o Papa agora, por exemplo, no Encontro Mundial, falar do trabalho. O trabalho não pode dominar a família, ele é um instrumento da família, mas não é o fundamental”, enfatizou.

O sacerdote acredita que quando os pais cumprem essa tarefa, conseguem fazer com que a criança utilize os terceiros como uma ponte. “Mas se há uma ausência e um desleixo que aconteça entre os pais e as crianças, elas vão buscando o seu refúgio e as suas convicções nos outros”, afirmou.
 

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