Liturgia deste Domingo

Pregador do Papa fala da dimensão de Cristo como “Bom Pastor”

Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofm cap. Pregador da Casa Pontifícia, sobre a liturgia deste domingo, IV da Páscoa.

Eu sou o bom pastor

IV Domingo da Páscoa

Atos 13, 14. 43-52; Apocalipse 7, 9.14b-17; João 10, 27-30

Nos três ciclos litúrgicos, o IV domingo da Páscoa apresenta uma passagem do Evangelho de João sobre o Bom Pastor. Depois de ter-nos colocado entre os pescadores, no domingo passado, o Evangelho nos coloca hoje entre os pastores. Duas categorias de igual importância nos evangelhos. De uma deriva o título de "pescadores de homens", de outra, o de "pastores de almas", dado aos apóstolos.

A maior parte da Judéia era uma planície de solo áspero e pedregoso, mais adequado ao pastoreio que à agricultura. A erva era escassa e o rebanho devia transladar-se continuamente, não havia cercas e isso requeria a constante presença do pastor entre o rebanho. Uma viajante do século passado nos deixou um retrato do pastor da Palestina de então: "Quando o vemos em uma elevada pastaria, insone, com o olhar que escruta a distância, exposto às intempéries, apoiado em sua vara, sempre atento aos movimentos do rebanho, então entendemos por que o pastor adquiriu tal importância na história de Israel, que deu este título a seu rei e Cristo o assumiu como emblema e sacrifício de si".

No Antigo Testamento, o próprio Deus é representado como pastor de seu povo: "O Senhor é meu pastor, nada me falta" (Sal 23, 1). "Ele é nosso Deus e nós, o povo de seu rebanho" (Sal 95, 7). O futuro Messias também é descrito com a imagem do pastor: "Como o pastor, ele pastoreia seu rebanho; recolhe em braços os cordeirinhos, leva-os no seio e trata com cuidado os recém-nascidos" (Is 40, 11). Esta imagem ideal de pastor encontra sua plena realização em Cristo. Ele é o bom pastor que vai à busca da ovelha perdida; compadece-se do povo porque o vê "como ovelhas sem pastor" (Mt 9, 36); chama seus discípulos de "pequeno rebanho" (Lc 12, 32). Pedro chama Jesus de "o pastor de nossas almas" (1 Pedro 2, 25) e a Carta aos Hebreus, de "o grande pastor das ovelhas" (Hebreus 13, 20).

De Jesus Bom Pastor, a passagem evangélica deste domingo sublinha algumas características. A primeira se refere ao conhecimento recíproco entre ovelhas e pastor: "Minhas ovelhas escutam minha voz; eu as conheço e elas me seguem". Em certos países da Europa, as ovelhas são criadas especialmente pela carne, em Israel se criavam sobretudo pela lã e pelo leite. Por isso, permaneciam anos e anos em companhia do pastor, que acaba por conhecer o caráter de cada uma e chamá-la com algum afetuoso apelido.

Está claro o que Jesus quer dizer com estas palavras. Ele conhece seus discípulos (e, enquanto Deus, conhece todos os homens); e os conhece "por seu nome", que para a Bíblia quer dizer em sua essência mais íntima. Ele os ama com um amor pessoal que chega a cada um como se fosse o único que existe ante Ele. Cristo não sabe contar mais do que até um: e esse um é cada um de nós.

Outra coisa nos diz do bom pastor a passagem do Evangelho do dia. Ele dá a vida às ovelhas e pelas ovelhas, e ninguém poderá arrebatá-las dele. O pesadelo dos pastores de Israel eram os animais selvagens – lobos e hienas – e os salteadores. Em lugares tão isolados, constituíam uma ameaça constante. Era o momento em que se evidenciava a diferença entre o verdadeiro pastor — que apascenta as ovelhas da família, que tem a vocação de pastor – e o assalariado, que se põe ao serviço de algum pastor só pelo pagamento que recebe dele, mas que não ama, e inclusive freqüentemente odeia as ovelhas. Frente ao perigo, o mercenário foge e deixa as ovelhas à mercê do lobo ou do malfeitor; o verdadeiro pastor enfrenta valentemente o perigo para salvar o rebanho. Isso explica por que a liturgia nos propõe o Evangelho do bom pastor no tempo pascal: a Páscoa foi o momento em que Cristo demonstrou ser o bom pastor que dá a vida por suas ovelhas.

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