Palavra do Papa

Mensagem de Bento XVI para a Jornada Mundial da Juventude 2010

"Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17)

Queridos amigos,

este ano marca o vigésimo quinto aniversário de instituição da Jornada Mundial da Juventude, desejada pelo Venerável João Paulo II como encontro anual de jovens crentes do mundo inteiro. Foi uma iniciativa profética que rendeu frutos abundantes, permitindo às novas gerações cristãs encontrarem-se, entrarem em atitude de escuta da Palavra de Deus, de descobrir a beleza da Igreja e de viver experiências fortes de fé que levaram muitos à decisão de entregar-se totalmente a Cristo.

A presente XXV Jornada representa um passo rumo ao próximo Encontro Mundial dos jovens, que será realizado em agosto de 2011 em Madrid, onde espero que sejam muitos a viver este momento de graça.

Para preparar-nos a essa celebração, desejo propor-vos algumas reflexões sobre o tema deste ano: "Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17), tirado do episódio evangélico do encontro de Jesus com o jovem rico; um tema já abordado, em 1985, pelo Papa João Paulo II em uma belíssima carta, dirigida pela primeira vez aos jovens.

1. Jesus encontra um jovem

"Tendo [Jesus] saído para se pôr a caminho, – conta o Evangelho de São Marcos – veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: 'Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?'. Jesus disse-lhe: 'Por que me chamas bom? Só Deus é bom. Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe'. Ele respondeu-lhe: 'Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade'. Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: 'Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me'. O jovem entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens" (Mc 10, 17-22).

Esta história expressa de modo eficaz a grande atenção de Jesus pelos jovens, por vós, por vossas expectativas, vossas esperanças, e mostra o quão grande é o seu desejo de encontrar-vos pessoalmente e dialogar com cada um de vós. Cristo, de fato, interrompe seu caminho para responder à pergunta de seu interlocutor, manifestando plena disponibilidade para aquele jovem, que é movido por um ardente desejo de falar com o "Bom Mestre", para aprender d'Ele a percorrer a estrada da vida. Com esse trecho evangélico, o meu Predecessor desejava exortar cada um de vós a "desenvolver o próprio colóquio com Cristo, um colóquio que é de importância fundamental e essencial para um jovem" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 2).

2. Jesus o olhou e o amou

No relato evangélico, São Marcos salienta como "Jesus fixou nele o olhar e o amou" (cf. Mc 10, 21). No olhar do Senhor está o coração deste especialíssimo encontro e de toda a experiência cristã. De fato, o cristianismo não é primariamente uma moral, mas experiência de Jesus Cristo, que nos ama pessoalmente, jovem ou velho, pobre ou rico; nos ama mesmo quando lhe viramos as costas.

Comentando a cena, o Papa João Paulo II acrescentava, dirigindo-se a vós, jovens: "Desejo que experimenteis um olhar assim. Desejo que experimenteis a verdade de que Cristo os olha com amor" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 7). Um amor, manifestado a nós sobre a Cruz de maneira plena e total, que faz São Paulo escrever com espanto: "Me amou e se entregou por mim" (Gal 2,20). "A consciência de que o Pai sempre nos amou em seu Filho, de que Cristo ama a cada um e sempre – escreve agora o Papa João Paulo II -, se converte em un sólido ponto de apoio para toda nossa existência humana" (Ibid, n. 7), e nos permite superar todos as provas: a descoberta de nossos pecados, o sofrimento, o desânimo.

Neste amor se encontra a fonte de toda a vida cristã e a razão fundamental da evangelização: se temos verdadeiramente encontrado Jesus, não podemos deixar de testemunhá-lo àqueles que ainda não encontraram o seu olhar!

3. A descoberta do projeto de vida

No jovem do Evangelho, podemos perceber uma condição muito similar àquela de cada um de vós. Também vós sois ricos de qualidade, de energias, de sonhos, de esperanças: recursos que vós possuís em abundância! A vossa própria idade se constitui uma grande riqueza, não somente para vós, mas também para os outros, para a Igreja e para o mundo.

O jovem rico pergunta a Jesus: "O que devo fazer?". A estação da vida em que estais imersos é tempo de descoberta: dos dons que Deus vos deu e das vossas responsabilidades. É, também, tempo de escolhas fundamentais para construir o vosso projeto de vida. É o momento, pois, de interrogar-vos sobre o autêntico sentido da existência e de perguntar-vos: "Estou satisfeito com minha vida? Está faltando alguma coisa?".

Como o jovem do Evangelho, talvez vós viveis situações de instabilidade, de turvamento ou de sofrimento, que vos levais a aspirar a uma vida que não seja medíocre e a perguntar-vos: em que consiste uma vida bem sucedida? O que devo fazer? Qual poderia ser o meu projeto de vida? "O que devo fazer para que minha vida tenha pleno valor e pleno sentido?" (Ibid., n. 3).

Não tenhais medo de afrontar essas questões! Longe de oprimir-vos, elas expressam as grandes aspirações que estão presentes no vosso coração. Portanto, devem ser ouvidas. Elas aguardam respostas que não sejam superficiais, mas capazes de atender às vossas autênticas expectativas de vida e de felicidade.

Para descobrir o projeto de vida que pode fazer-vos plenamente feliz, colocai-vos em escuta a Deus, que tem o seu plano de amor por cada um de vós. Com confiança, perguntai-lhe: "Senhor, qual é o teu plano de Criador e Pai sobre minha vida? Qual é a tua vontade? Eu desejo realizá-la". Tenhais certeza de que Ele vos responderá. Não tenhais medo de sua resposta! "Deus é maior que nosso coração e conhece todas as coisas" (1 Jo 3, 20)!

4. Vem e segue-me!

Jesus convida o jovem rico a ir muito além da satisfação de suas aspirações e de seus projetos pessoais, ele diz: "Vem e segue-me!". A vocação cristã surge de uma proposta de amor do Senhor e somente pode se realizar graças a uma resposta de amor: "Jesus convida os seus discípulos ao dom total da sua vida, sem cálculos nem vantagens humanas, com uma confiança em Deus sem hesitações. Os santos acolhem este convite exigente, e põem-se com docilidade humilde no seguimento de Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição, na lógica da fé por vezes humanamente incompreensível, consiste em não colocar a si mesmos no centro, mas em escolher ir contra a corrente vivendo segundo o Evangelho" (Homilia durante Canonização de cinco beatos, 11 de outubro de 2009).

Seguindo o exemplo de muitos discípulos de Cristo, também vós, queridos amigos, acolheis com alegria o convite para o discipulado, para viver intensamente e de modo frutífero neste mundo. Com o Batismo, de fato, ele chama cada um a segui-Lo com ações concretas, a amá-Lo acima de todas as coisas e a servi-Lo nos irmãos. O jovem rico, infelizmente, não aceitou o convite de Jesus e foi embora triste. Não tinha encontrado a coragem de romper com os bens materiais para encontrar o bem maior proposto por Jesus.

A tristeza do jovem rico do Evangelho é aquela que nasce no coração de cada um quando não se tem a coragem de seguir a Cristo, de fazer a escolha certa. Mas nunca é tarde demais para responder-Lhe!

Jesus não se cansa de dirigir o seu olhar de amor e chamar para ser seus discípulos, mas Ele propõe a alguns uma escolha mais radical. Neste Ano Sacerdotal, desejo exortar os jovens e os rapazes a estarem atentos se o Senhor convida para um dom maior, na via do Sacerdócio ministerial, e a permanecer disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de especial predileção, traçando, com a ajuda de um sacerdote, do diretor espiritual, o necessário caminho de discernimento. Não tenhais medo, então, queridos jovens e queridas jovens, se o Senhor vos chama à vida religiosa, monástica, missionária ou de especial consagração: Ele sabe doar profunda alegria àqueles que respondem com coragem!

Convido, também, aqueles que sentem a vocação para o matrimônio a acolhê-la com fé, empenhando-se em colocar uma base sólida para viver um amor grande, fiel e aberto ao dom da vida, que é riqueza e graça para a sociedade e para a Igreja.

5. Orientai-vos rumo à vida eterna

"Que devo fazer para alcançar a vida eterna?". Essa questão do jovem do Evangelho parece distante das preocupações de muitos jovens contemporâneos, porque, como observava o meu Predecessor, "não somos nós a geração a que o mundo e o progresso temporal enchem completamente o horizonte da existência?" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 5). Mas a pergunta sobre a "vida eterna" surge em particulares momentos dolorosos da existência, quando vivenciamos a perda de alguém próximo ou quando vivemos a experiência do fracasso.

Mas o que é "vida eterna", a que se refere o jovem rico? Jesus a ilustra quando, voltando-se a seus discípulos, afirma: "Hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria" (Jo 16, 22). São palavras que indicam uma proposta exaltante de felicidade sem fim, da alegria de ser preenchido pelo amor divino para sempre.

Interrogar-se sobre o futuro definitivo que aguarda a cada um de nós dá sentido pleno à existência, porque orienta o projeto de vida rumo a horizontes não limitados e passageiros, mas amplos e profundos, que levam a amar o mundo, tão amado por Deus mesmo, a dedicar-nos ao seu desenvolvimento, mas sempre com a liberdade e a alegria que nasce da fé e da esperança. São horizontes que ajudam a não absolutizar a realidade terrena, sentindo que Deus nos prepara um perspectiva mais ampla, e a repetir com Santo Agostinho: "Desejamos a pátria celeste, suspiramos pela pátria celeste, nos sentimos peregrinos aqui na terra" (Comentário ao Evangelho de São João, Homilia 35, 9). Mantendo os olhos fixos na vida eterna, o Beato Pier Giorgio Frassati, que morreu em 1925, com 24 anos, disse: "Desejo viver e não subsistir!", e sobre a foto de uma escada, enviada a um amigo, escreveu: "Para o alto", aludindo à perfeição cristã, mas também à vida eterna.

Queridos jovens, exorto-vos a não esquecer essa perspectiva em vosso projeto de vida: somos chamados à eternidade. Deus nos criou para estar com Ele, para sempre. Isso vos ajudará a dar sentido pleno às vossas escolhas e a agregar qualidade à vossa existência.

6. Os mandamentos, via do amor autêntico

Jesus recorda ao jovem rico os dez mandamentos como condições necessárias para "alcançar a vida eterna". Eles são pontos de referência essenciais para viver no amor, para distinguir claramente o bem do mal e construir um projeto de vida sólido e duradouro. Também a vós, Jesus pergunta se conheceis os mandamentos, se vos preocupais em formar a vossa consciência segundo a lei divina e se a colocais em prática.

Naturalmente, trata-se de perguntas contra a corrente em relação à mentalidade atual, que propõe uma liberdade desvinculada de valores, de regras, de normas objetivas e convida a rejeitar todos os limites em nome dos desejos do momento. Mas este tipo de proposta, ao invés de conduzir à verdadeira liberdade, leva o homem a se tornar um escravo de si mesmo, de seus desejos imediatos, dos ídolos como o poder, o dinheiro, o prazer desenfreado e as seduções do mundo, tornando-o incapaz de seguir a sua vocação original ao amor.

Deus nos dá os mandamentos porque deseja educar-nos à verdadeira liberdade, porque quer construir conosco um Reino de amor, de justiça e de paz. Escutá-los e colocá-los em prática não significa se alienar, mas encontrar o caminho da liberdade e do amor autêntico, porque os mandamentos não limitam a felicidade, mas indicam como encontrá-la. Jesus, no início do diálogo com o jovem rico, recorda que a lei dada por Deus é boa, porque "Deus é bom".

7. Temos necessidade de Vós

Quem vive hoje na condição de jovem se encontra afrontado por muitos problemas decorrentes do desemprego, da falta de referências ideais corretas e de perspectivas concretas para o futuro. Às vezes, pode-se ter a impressão de que se é impotente diante das crises e desvios atuais. Apesar das dificuldades, não percais a coragem e não renuncieis a vossos sonhos! Ao contrário, cultiveis no coração o grande desejo de fraternidade, justiça e paz. O futuro está nas mãos de quem sabe procurar e encontrar razões fortes de vida e de esperança. Se quiserdes, o futuro está em vossas mãos, porque os dons e as riquezas que o Senhor incutiu no coração de cada um de vós, plasmados no encontro com Cristo, podem trazer autêntica esperança ao mundo! É a fé no seu amor que, tornando-vos fortes e generosos, vos dará a coragem de afrontar com serenidade o caminho da vida e assumir responsabilidade familiar e profissional. Empenhai-vos a construir o vosso futuro através de um sério percurso de formação pessoal e de estudo, para servir de modo competente e generoso ao bem comum.

Na minha recente Carta Encíclica sobre o desenvolvimento humano integral, Caritas in veritate, elenquei alguns grandes desafios atuais, que são urgentes e essenciais para a vida deste mundo: o uso dos recursos da terra e o respeito da ecologia, a justa divisão dos bens e o controle dos mecanismos financeiros, a solidariedade com os Países pobres no âmbito da família humana, a luta contra a fome no mundo, a promoção da dignidade do trabalho humano, o serviço à cultura da vida, a construção da paz entre os povos, o diálogo inter-religioso, o bom uso dos meios de comunicação social.

São desafios aos quais sois chamados a responder para construir um mundo mais justo e fraterno. São desafios que requerem um projeto de vida exigente e apaixonante, no qual colocar toda a vossa riqueza segundo o plano que Deus tem para cada um de vós. Não se trata de fazer gestos heroicos ou extraordinários, mas agir explorando os próprios talentos e as próprias possibilidades, empenhando-se em progredir constantemente na fé e no amor.

Neste Ano Sacerdotal, convido-vos a conhecer a vida dos santos, em particular a dos sacerdotes santos. Vejais que Deus lhes guiou e que encontraram a própria estrada dia após dia, exatamente na fé, esperança e no amor. Cristo chama cada um de vós a empenhar-se com Ele e a assumir a própria responsabilidade para construir a civilização do amor. Se seguirdes a sua palavra, também a vossa estrada se iluminará e vos conduzirá a metas elevadas, que dão alegria e sentido pleno à vida.

Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, vos acompanhe com sua proteção. Vos asseguro a minha lembrança na oração e, com grande afeição, vos abençoo.

Dado no Vaticano, aos 22 de fevereiro de 2010

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