Artigo - Frei Moser

A importância dos símbolos na vida e na cultura dos povos

São inúmeros os estudos, antigos e recentes, sobre a importância dos símbolos na vida e na cultura dos povos. De alguma forma eles são uma linguagem cifrada das aspirações e dos ideais humanos. Por isso mesmo existem desde tempos imemoráveis e continuarão existindo. São tão importantes para a vida e a cultura dos povos que hoje a semiótica ( semeion=sinal) – ciência que estuda os significados da linguagem e dos símbolos é muitíssimo conceituada.

Existem símbolos com significados profundos dentro de um determinado contexto histórico e cultural. Quando abraçados com ardor, manifestam e alimentam o respeito e o despertar de energias inesperadas. É o caso da bandeira ou do hino nacional de um país. Por isso mesmo até as crianças, quando participam de uma cerimônia cívica, ao hastear da bandeira e ao canto do hino nacional levam inconscientemente a mão ao peito. Ter sobre seu caixão a bandeira é uma das maiores honras que podem ser concedidas a quem deu a vida pela pátria.

 

Outros símbolos apontam para um nível ainda mais profundo, tentando traduzir convicções e valores que se apresentam como indissociáveis para a sobrevivência de uma instituição ou cultura; expressam a identidade profunda. Assim, para todos os povos, túmulos e cemitérios foram e são lugares onde se “respira um clima” de sacralidade e se mergulha nos mistérios da vida após a morte. Violar um túmulo é algo inadmissível em qualquer civilização.

Particularmente profundos são os símbolos religiosos, por mais simples que possam parecer. E esses símbolos apresentam variáveis, mas sempre ultrapassam o nível do que se visualiza e apontam para uma dimensão transcendente.

No caso daquelas inúmeras nações e das incontáveis regiões que foram evangelizadas pelo cristianismo, um dos símbolos mais expressivos é o do Cristo crucificado. Por isso, mesmo onde a modernidade e o materialismo se impuseram com furor, ninguém ousa tocá-lo. É o que se percebe, por exemplo, em muitos dos países da Europa Central. Passam os regimes, passam as ideologias e as cruzes lá continuam, atravessando o tempo.

Porém, o exemplo mais surpreendente de respeito aos símbolos religiosos verificou-se na antiga União Soviética. A começar pelo coração do materialismo ateu, o Kremlin. Todo rodeado por imponentes muralhas, sobre as quais tremulavam bandeiras, naturalmente vermelhas, e revestidas da foice e do martelo, mesmo no auge do fervor marxista, ninguém ousou tocar nas três lindas igrejas situadas no coração do Kremlin: a do Arcanjo Miguel, a da Dormição e a da Anunciação. Também no mesmo local ainda se conservam torres e salões batizados com nomes de santos: Torre São Salvador, Torre de São Nicolau, de São Constantino e Torre Santa Helena. E para não esquecer, preservou-se ainda um salão dedicado a São Vladimir. Aliás, não dá para esquecer a imponente Catedral de São Basílio, no Centro da Praça Vermelha.

Existem ainda muitas outras igrejas, que com seu estilo bizantino dão um toque todo especial a Moscou e a toda a Rússia. E aqui aparece a maior surpresa: mesmo se empenhando durante 70 anos para arrancar do coração do povo as convicções religiosas, consideradas como alienantes; mesmo prometendo um “paraíso terrestre” no lugar do “paraíso celeste”, os fervorosos marxistas acabaram se esquecendo de um detalhe: derrubar as igrejas e monumentos religiosos, deixando-os intactos, inclusive com as cruzes que continuam imponentes no alto de todas as inúmeras torres.

Ao lerem essas considerações, com certeza alguns irão se perguntar pela sua razão de ser. Existem ao menos duas. Primeira: aqui e ali há quem comece a exigir a retirada de símbolos religiosos de locais públicos. O símbolo mais visado é naturalmente o do Cristo crucificado. É que Jesus, cometeu um erro imperdoável: em vez de prometer um paraíso terrestre, prometeu apenas um paraíso celeste. Segunda resposta: se formos levar a sério certas propostas, devidamente avalizadas por altas autoridades, teremos que proceder como os americanos em Bagdá, derrubando tudo o que se contrapõe aos seus interesses. E sempre existem figuras que incomodam alguém.

Nesse contexto brasileiro de debates oriundos de decretos nos quais se entrevê uma espécie de pretensão de corrigir Moisés e Jesus Cristo, talvez seja conveniente lembrar um relato do que teria ocorrido com o Imperador Constantino. Quando, preparava-se para enfrentar o cruel e tirânico Maxêncio, na Ponte Mílvia, em Roma, em 312, em sonho ele teria sido encorajado por uma voz que parecia sair de uma grande cruz dizendo-lhe: "Com esse sinal vencerás". Constantino não só venceu, como concedeu liberdade religiosa, e, com isso, pôs fim à perseguição dos cristãos.

Convém não esquecer que os símbolos se constituem numa manifestação das aspirações mais profundas de um povo. Tentar remover símbolos religiosos, sobretudo no contexto do Brasil, é tentar arrancar sua alma e sua brasilidade. Pois por mais que isto possa desagradar a uns poucos setores da sociedade, convém recordar que o Brasil nasceu aos pés da cruz, quando da primeira Missa celebrada por Frei Henrique de Coimbra.

A remoção de símbolos religiosos se constituiria afronta não só religiosa, mas também cultural ao nosso povo. O Brasil, que no início foi batizado com o expressivo nome de “Terra da Santa Cruz”, não se entenderia a si mesmo sem seus símbolos religiosos e as manifestações de fé de sua gente. Por isso mesmo, qualquer tentativa de atacar as convicções mais profundas do povo são sempre temerárias. Não faltam exemplos de pessoas arrogantes que se atribuíram direitos que não lhes cabiam e, por vezes mais cedo do que esperavam, acabaram encontrando uma "Ponte Milvia" em seu caminho. É só questão de tempo.

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